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RELACIONAMENTOS · CONFLITO E REPARAÇÃO

Como fazer uma reclamação sem criticar a pessoa

Fazer uma reclamação sem criticar a pessoa é falar sobre algo que aconteceu, não sobre quem ela é. "Isso não está funcionando pra mim" abre uma porta; "o problema é você" fecha essa porta na cara. Veja como trazer à tona o que está te incomodando de um jeito que a outra pessoa consiga realmente escutar: tire o sempre e o nunca da frase, diga eu senti em vez de você é, e fale de uma coisa de cada vez.

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Homem olhando para uma mulher sentada num banco de madeira preto em frente a árvores altas durante o dia

Foto de Kelly Sikkema no Unsplash

Você tem engolido isso há dias. A louça, as mensagens que demoram, a decisão que foi tomada sem te consultar. Hoje à noite você finalmente fala alguma coisa, e em trinta segundos os dois já estão num lugar feio. A pessoa fica na defensiva, você escala, e a questão de verdade, aquela coisa que você queria resolver, nem chega a ser discutida.

Esse desfecho geralmente não tem a ver com o que você trouxe à tona. Tem a ver com como a primeira frase caiu.

Existe uma diferença entre reclamar de algo e criticar alguém, e essa diferença não é sobre ser educado ou morder a língua. Uma reclamação é sobre algo que aconteceu. Uma crítica é sobre quem a pessoa é. "A cozinha ficou toda desarrumada de novo e isso me frustra" é uma reclamação. "Você é tão preguiçoso, nunca limpa nada" é uma crítica. Mesma louça. Conversa completamente diferente. A primeira pode ser resolvida. A segunda precisa ser defendida, porque você acabou de dizer que tem algo errado com a pessoa, e quase ninguém ouve isso e pensa: *boa observação, deixa eu refletir.*

Por que o "você" apaga a luz?

Observe o que acontece no seu próprio corpo quando alguém começa com "você sempre" ou "você nunca". Alguma coisa se contrai. Você já está montando a defesa antes mesmo de a pessoa terminar a frase. Esse reflexo é o problema inteiro, e a outra pessoa também tem ele.

O pesquisador de relacionamentos John Gottman passou décadas observando casais conversarem, e uma de suas descobertas mais citadas é que o jeito como uma conversa começa prevê, com uma frequência impressionante, como ela vai terminar. Um início áspero quase garante um final áspero. Ele chama os ataques ao caráter de "crítica" e a coloca como o primeiro de quatro padrões que corroem silenciosamente um relacionamento. Como a equipe de Gottman coloca, criticar é diferente de expressar uma reclamação, porque uma reclamação é sobre um problema específico enquanto a crítica é "um ataque pessoal" contra a pessoa.

Aqui está a armadilha. A crítica parece mais honesta. Quando você está magoado, "você é egoísta" pode parecer mais verdadeiro do que "eu me senti decepcionado", porque a dor é grande e o momento é pequeno. Mas veredictos sobre o caráter quase nunca ajudam no calor da hora. Eles dizem à outra pessoa *você é ruim* em vez de *isso não funcionou*, e a primeira mensagem não dá margem para agir. Não há o que fazer com "você é egoísta" além de discordar.

O formato de uma reclamação que é bem recebida

Uma reclamação que a outra pessoa consegue realmente escutar costuma ter três partes simples. Você não precisa dizer na ordem, nem parecer que está lendo um roteiro. Só precisa incluir as três.

  1. A coisa específica. Nomeie o comportamento em si, uma vez, sem julgamento embutido. "As contas não foram pagas esse mês." Não "você nunca pode ser responsável por nada."
  2. Como isso te afetou. É aqui que o "eu" faz o trabalho. "Fiquei ansioso quando vi o aviso de atraso." Você está relatando sua própria experiência, algo que ninguém pode contestar, em vez de atribuir uma intenção à outra pessoa, o que ela vai rebater.
  3. O que você gostaria em vez disso. Um pedido, apontando para algo a caminhar em direção, e não só algo para parar. "A gente pode colocar um lembrete e dividir quem cuida disso?" Uma reclamação sem pedido tende a soar como veredicto, porque você nomeou o problema e não deu para onde a outra pessoa ir com isso.

Então, em vez de "você é irresponsável com dinheiro", fica mais perto de: "As contas não foram pagas esse mês, e fiquei ansioso quando o aviso chegou. Será que a gente consegue criar um sistema pra isso não cair só nas costas de uma pessoa?"

Note o que está faltando. Nenhum "sempre". Nenhum "nunca". Nenhuma suposição sobre o motivo. Você não está fingindo que não está chateado. Você está direcionando a chateação para a situação, e não para a alma da outra pessoa.

Por que a versão com "eu" não é só mais suave, mas mais precisa?

Às vezes as pessoas ouvem "use frases com eu" como um truque de educação, um jeito de lixar as arestas para não incomodar ninguém. Na verdade, é o jeito mais verdadeiro de falar.

Você realmente conhece os seus próprios sentimentos. Você não conhece de fato as intenções da outra pessoa. Quando você diz "você não se importa comigo", está declarando uma teoria sobre a vida interior dela como se fosse fato, e geralmente você está errado, ou pelo menos está vendo só uma parte do quadro. Quando você diz "me senti sem importância quando o plano mudou e ninguém me avisou", você está relatando a única coisa sobre a qual você tem autoridade real. É por isso que fica mais difícil discordar. Não é uma afirmação mais suave. É uma afirmação mais honesta.

Esse é o coração do que os terapeutas chamam de comunicação assertiva, que a área descreve como expressar suas necessidades e sentimentos diretamente, respeitando a outra pessoa. A orientação da Mayo Clinic sobre assertividade traz o exemplo mais simples dessa troca: diga "eu discordo" em vez de "você está errado". Uma frase afirma sua posição. A outra condena a posição do outro. Mesma discordância, temperatura muito diferente. A American Psychological Association enquadra a assertividade da mesma forma, como o caminho do meio entre engolir o que você precisa e passar por cima de alguém para conseguir o que quer.

A mágoa que fica rendendo juros

Existe um tipo particular de reclamação que quase sempre sai como crítica, e vale nomear porque muita gente cai nessa armadilha. É aquela que você foi guardando.

A coisinha pequena aconteceu. Você não disse nada, porque parecia bobagem demais para fazer alarde. Depois aconteceu de novo, e você ficou quieto de novo, e agora você tem uma pasta inteira. Quando finalmente você abre a boca, você não está reagindo à louça de hoje. Você está sacando três semanas de irritação engolida, e tudo isso sai apontado para a pessoa, porque nenhum evento isolado justificaria tanto sentimento acumulado.

É por isso que "você sempre" e "você nunca" parecem tão verdadeiros no momento. Eles são fiéis à pasta, mesmo sendo injustos com a noite em si. A solução não é sentir menos. É trazer a coisinha pequena à tona enquanto ela ainda é pequena, quando uma reclamação calma e específica ainda está proporcional ao que aconteceu. Uma reclamação dita logo cedo pode continuar sendo uma reclamação. Uma reclamação guardada por um mês tende a voltar como um julgamento de caráter.

Se você já tem a pasta cheia, também pode dizer isso. "Isso é maior do que hoje à noite, e a culpa é minha por não ter falado antes. Posso te contar o padrão que venho notando?" Essa frase faz algo honesto. Ela assume sua parte no silêncio, e sinaliza que o que vem a seguir é um problema para os dois olharem juntos, não uma sentença para ser lida.

Como fazer isso na prática quando você está chateado?

Saber a diferença e conseguir aplicar em tempo real são duas habilidades diferentes. Algumas coisas que ajudam a fazer a segunda funcionar:

  • Traga uma coisa só. O impulso, quando você finalmente abre a boca, é despejar tudo. Resista. Uma lista de queixas sempre soa como um ataque à pessoa, porque nenhuma solução isolada conseguiria responder a tudo aquilo. Escolha a que importa mais agora.
  • Suavize os primeiros dez segundos. Você não precisa ser gentil na conversa inteira. Precisa ser gentil no começo, porque é essa parte que decide se a outra pessoa vai continuar aberta ou vai se blindar. Comece pelo que você sente e o que gostaria, não pelo veredicto.
  • Preste atenção no timing. Quase nada importante se resolve quando um dos dois está com fome, exausto, quase saindo porta afora, ou depois de algumas doses. "Pode ser agora, ou tem um horário melhor hoje?" não é sinal de fraqueza. É a diferença entre uma conversa e uma emboscada.
  • Fique de olho nas palavras generalizantes. "Sempre" e "nunca" são sinais de alerta que transformam uma reclamação em crítica. No momento em que você se pega recorrendo a elas, geralmente você parou de descrever um acontecimento e começou a descrever uma pessoa. Volte para a coisa específica que realmente aconteceu.
  • Fique no fato, não no diagnóstico. "Você é controlador" é um diagnóstico. "Quando a agenda foi decidida sem mim, me senti excluído" fica no chão, no fato real. Diagnósticos começam brigas. Fatos começam reparos.

E se a outra pessoa ouvir como crítica mesmo assim?

Às vezes você faz tudo certo e a pessoa ainda se retrai. Você disse "me senti magoado" e ela ouviu "você me machucou, você é uma pessoa má". Isso acontece, principalmente com alguém que está acostumado a ser criticado, ou que está passando por uma semana difícil.

Você não pode controlar como a mensagem cai. Você pode se recusar a escalar. "Não estou dizendo que você é um mau parceiro. Estou te contando que essa coisa me machucou, porque prefiro te contar do que ficar calado." Nomear que você não está atacando, em voz alta, pode trazer a conversa de volta da beira do precipício mais vezes do que você imagina. E se a pessoa pedir desculpas ou tentar resolver, deixe que isso seja suficiente. O objetivo era o reparo, não a confissão. Quem ganha a discussão e perde a proximidade geralmente não precisava disso.

A armadilha aqui é se deixar puxar pela reação da pessoa. Ela fica na defensiva, então você abandona a sua reclamação tranquila e começa a acusar a defensividade dela, e agora você está três camadas dentro de uma briga que não tem nada a ver com a louça. Quando sentir esse puxão, nomeie e volte para a única coisa que importa. "A gente pode conversar sobre como eu falei. Mas eu ainda quero resolver a questão de verdade." Fique ancorado no pedido. Uma reação defensiva costuma ser só um sinal de que o primeiro golpe acertou, e a maioria das pessoas se abre quando sente que você não está lá para condenar.

Também ajuda lembrar que isso é uma prática, não um teste de personalidade. Você vai errar. Vai dizer a coisa dura, se arrepender, e vai precisar voltar com "aquilo saiu como um ataque e não foi justo, deixa eu tentar de novo". Esse reparo, a disposição de voltar e refazer, talvez importe mais no longo prazo do que acertar a primeira frase.

Quando é maior do que uma frase mal colocada?

Essa abordagem serve para o atrito comum de se importar com alguém, a louça, as agendas e as pequenas mágoas que se repetem. Ela pressupõe duas pessoas que se sentem basicamente seguras uma com a outra e que querem que as coisas melhorem.

Se essa não é a sua situação, nenhuma fórmula de comunicação é a resposta, e seria errado sugerir uma. Quando alguém vira toda reclamação contra você, te pune por falar o que sente, ou faz você ter medo de trazer qualquer assunto, o problema não são as suas palavras. Se um relacionamento te deixa pisando em ovos, ou você está lidando com algo que parece controlador ou inseguro, vale a pena conversar com um psicólogo ou um profissional preparado que possa olhar o quadro todo com você. E se as mesmas brigas continuam girando em círculo, não importa o quanto você tente começar com cuidado, procurar uma terapia de casal não é sinal de fracasso. É assim que muita gente aprende a ter a conversa difícil sem perder o outro no meio do caminho.

A promessa silenciosa por trás de tudo isso é simples. Você tem o direito de querer algo diferente e ainda estar no mesmo time. Dizer isso com clareza, sem transformar a outra pessoa em inimiga, é uma das coisas mais amorosas que você pode aprender a fazer.

Fontes

  1. The Gottman Institute, The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling
  2. The Gottman Institute, The Four Horsemen: The Antidotes
  3. Mayo Clinic, Being assertive: Reduce stress, communicate better
  4. American Psychological Association, Assertiveness (APA Dictionary of Psychology)

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