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AMOR QUE PERMANECE · PARCERIA

Como saber se é uma fase difícil ou um problema de verdade

Uma fase difícil tem uma causa que você consegue apontar e uma duração; um problema de verdade é um padrão que se repete. Todo relacionamento longo passa por momentos duros. O complicado é saber quais fases passam por conta própria e quais estão, sem alarde, tentando te dizer algo. Veja como reconhecer a diferença sem entrar em pânico.

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Casal de idosos sorrindo num sofá

Foto de Vitaly Gariev no Unsplash

Tem semanas em que dá pra sentir a distância entre vocês. As conversas ficam só no logístico. As piadas caem sem graça, ou nem aparecem. Você se pega ensaiando reclamações no banho. E, no fundo, existe uma pergunta que você não quer nem fazer em voz alta: será que é só uma fase ruim, ou tem mesmo algo errado?

Essa pergunta é mais comum do que as pessoas admitem. Todo relacionamento que dura o suficiente passa por períodos que parecem frios, cansativos ou travados. O NHS (sistema de saúde do Reino Unido) coloca de forma direta: discordâncias são normais, e a vida pode deixar qualquer um de nós irritado, na defensiva ou fechado por um tempo. Uma fase ruim não é um veredito. Mas também não é nada, e fingir que ela não existe raramente ajuda. A habilidade que vale a pena desenvolver é saber diferenciar com honestidade, para responder ao que realmente está acontecendo, e não ao seu pior medo sobre isso.

Como geralmente é uma fase ruim?

A maioria das fases ruins tem um formato parecido. Existe uma causa que dá pra apontar, mesmo que você não tenha percebido de início. Um bebê recém-nascido. Um trimestre exaustivo no trabalho. Um pai ou mãe doente. Uma mudança de casa. Meses de sono ruim. O relacionamento não azedou de verdade, só está andando na reserva, porque vocês dois também estão.

Alguns sinais de que você está numa fase, e não num padrão:

  • Você ainda consegue imaginar a outra pessoa do seu lado. Mesmo frustrado, uma parte de você assume que ela também quer que o relacionamento dê certo.
  • O atrito tem uma temporada. Começou junto com algo específico e dá pra imaginar que vai aliviar quando aquilo passar.
  • Vocês ainda se reconciliam. Um se irrita, depois amolece. Alguém pede desculpas. O dia termina um pouco melhor do que a briga terminou.
  • Você sente falta da pessoa. A distância parece uma perda, não um alívio.

Se a maior parte disso soa verdadeiro, o que você provavelmente precisa é de descanso, tempo e algumas conversas sinceras, não de uma emergência. Fases ruins respondem bem a cuidados simples: dormir mais, aliviar a pressão, um encontro de verdade, dizer em voz alta que as coisas têm sido difíceis ultimamente. A American Psychological Association aponta que casais que simplesmente se falam com regularidade, mesmo que por poucos minutos por dia sobre algo além de tarefas e horários, tendem a ficar mais conectados a longo prazo. Muitas fases se resolvem só porque duas pessoas decidem, de propósito, voltar a se aproximar.

O que indica algo mais profundo?

A pergunta mais difícil é quando o problema não é sobre uma pressão externa, mas sobre como vocês dois se tratam. Aqui, pesquisadores nos deram algo realmente útil.

O psicólogo John Gottman passou décadas observando casais discutindo em laboratório e acompanhando o que acontecia com eles anos depois. Ele descobriu que o conteúdo de uma briga importa muito menos do que o estilo dela. Quatro hábitos específicos apareciam com tanta consistência em relacionamentos que depois terminavam, que ele os chamou de Os Quatro Cavaleiros: crítica, desprezo, defensividade e fechamento (stonewalling).

Uma tradução rápida, porque a diferença é o ponto central:

Crítica

Não é uma reclamação sobre algo que a pessoa fez, e sim um ataque a quem ela é. "Você esqueceu de ligar" é uma reclamação. "Você nunca pensa em ninguém além de você mesmo" é crítica. Uma fala sobre um evento. A outra é uma acusação contra o caráter da pessoa.

Desprezo

Esse é o mais pesado. Desprezo é crítica com nojo por cima: sarcasmo, apelidos, deboche, aquele revirar de olhos. Gottman descobriu que o desprezo, mais do que qualquer outra coisa, era o maior indicativo de que um casal iria se separar. Ele diz ao seu parceiro que você parou de vê-lo como igual, alguém que merece respeito. Se isso mora no seu relacionamento, leve a sério.

Defensividade

Responder a toda preocupação com um contra-ataque ou uma desculpa, de modo que nada que o parceiro traga chega a ser realmente ouvido. É compreensível. Mas também significa que os problemas nunca são resolvidos de verdade, só ficam sendo julgados de novo.

Fechamento (stonewalling)

Se fechar e ficar em silêncio. Muros erguidos, olhar em outro lugar, nenhuma resposta. Muitas vezes é o que alguém faz quando está sobrecarregado e no limite, mas do outro lado parece uma porta se fechando.

Aqui está por que isso importa para a pergunta que trouxe você até aqui. Uma fase ruim é um relacionamento sob pressão. Um problema real é um relacionamento onde esses quatro padrões se instalaram e criaram raízes, aparecendo não importa sobre o que vocês estejam brigando. Fases passam. Padrões se enraízam, a menos que algo os mude.

Algumas perguntas honestas para refletir

Você não precisa de um diagnóstico. Precisa de uma leitura mais clara. Algumas perguntas costumam cortar a névoa:

  1. Quando imagino nós dois daqui a um ano, sem nada mudar, sinto pavor ou só cansaço? Cansaço geralmente indica uma fase. Pavor merece atenção.
  2. A gente ainda consegue se reconciliar depois de uma briga, ou os sentimentos ruins só vão se acumulando em silêncio?
  3. Ainda respeito essa pessoa, e me sinto respeitado por ela? O afeto pode diminuir e voltar. O respeito é a estrutura que sustenta tudo.
  4. A distância é por causa de algo que está acontecendo com a gente, ou por causa de como estamos nos tratando?
  5. Consigo trazer um problema à tona e ser ouvido, mesmo que de forma imperfeita?

Não existe uma pontuação aqui. Mas se suas respostas continuam apontando para como vocês se tratam, e não para uma pressão passageira, esse é o sinal para levar a sério enquanto ainda dá pra trabalhar nisso.

O que fazer, na prática?

Para uma fase ruim, comece pequeno e comece logo. Diga a parte silenciosa: "A gente tem se sentido distante ultimamente, e sinto falta de nós." Reserve um tempo que não seja sobre a lista de tarefas. Recupere o sono e o apoio que a pressão do momento tirou de vocês. Na maioria das vezes, se aproximar de propósito algumas vezes faz mais do que qualquer gesto grandioso.

Para um padrão mais profundo, a atitude certa é justamente a que os casais mais deixam de tomar: não esperar. Em média, os casais deixam os problemas se arrastarem por anos antes de buscar ajuda, quando os padrões já estão bem mais enraizados. Terapia de casal não é sinal de que o relacionamento fracassou. É um espaço para desenvolver habilidades, e um bom terapeuta pode ensinar os antídotos específicos para esses quatro padrões: formas mais gentis de levantar uma preocupação, assumir responsabilidade em vez de se defender, reconstruir o respeito. A APA aponta que aprender essas habilidades, seja em terapia ou até em programas estruturados de educação para relacionamentos, reduz de forma mensurável as chances de um casal se separar. Você também pode ir sozinho. Trabalhar suas próprias reações muda a dinâmica, mesmo que seu parceiro não participe.

Quando é maior do que uma fase ruim?

Uma linha que não é sobre interpretar sinais sutis. Se há violência física, ameaças, intimidação, comportamento controlador, ou se você sente medo dentro da própria casa, isso não é uma fase ruim, nem uma questão de comunicação para trabalhar junto. O NHS diz isso claramente: está tudo bem em deixar um relacionamento que não parece certo ou que está prejudicando seu bem-estar, e existe ajuda especializada para abuso, separada do trabalho comum de casal. Sua segurança vem primeiro, sempre, e buscar esse tipo de ajuda é, em si, uma forma de força.

A maioria dos relacionamentos não está nesse território. A maioria está em algum lugar no meio comum, cansada e um pouco desgastada, fazendo uma pergunta justa sobre si mesma. Se esse é o seu caso, o simples fato de você estar prestando atenção já é um bom sinal. Pessoas que notam a distância e decidem fazer algo a respeito geralmente têm relacionamentos que valem o esforço. Você não precisa ter tudo resolvido hoje. Só precisa se voltar para isso, em vez de se afastar.

Fontes

  1. American Psychological Association, Happy couples: How to keep your relationship healthy
  2. The Gottman Institute, The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling
  3. NHS, Maintaining healthy relationships and mental wellbeing

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