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CONFLITO E RECONCILIAÇÃO · RAIVA

Quando você se irrita fácil: reações mais calmas que dá pra praticar

Quando você é a pessoa que reage demais, lidar com o pavio curto significa perceber isso no corpo antes de tudo. Se você já explodiu com alguém por algo pequeno e ficou se sentindo mal dez minutos depois, isso é para você. Ter um pavio curto não é um defeito de caráter. É um corpo que dispara o alarme rápido demais, e existem formas de lidar com isso.

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Casal sentado numa cama em um quarto claro

Foto de Vitaly Gariev no Unsplash

Existe um tipo particular de silêncio que vem depois que você explode. O ambiente fica parado. A outra pessoa fica na defensiva, ou vai embora. E você fica ali, revivendo os últimos sessenta segundos, se perguntando como um comentário mal colocado sobre a louça virou você levantando a voz por algo que, até para você, já não parece tão grande assim.

Se você conhece esse silêncio, você não é uma pessoa má. É alguém cujo alarme dispara rápido e forte, e que depois precisa lidar com os estragos que isso deixa. Isso é real, e dá para trabalhar. Não virando uma pessoa calma da noite para o dia, coisa que ninguém consegue, mas aprendendo a reconhecer o que realmente aciona esse pavio e ganhando alguns segundos antes que ele pegue fogo.

O que é, na verdade, um pavio curto?

A raiva em si é normal. Ela vai de uma irritação leve até a fúria, e sozinha não é o problema. A American Psychological Association a descreve como uma emoção humana comum, que vem junto com o coração acelerado, a pressão mais alta e uma onda de hormônios do estresse. Todo mundo sente raiva. A questão, para quem tem pavio curto, é a velocidade com que se vai do zero ao ponto de explosão, e o quão pouco parece ser necessário para isso acontecer.

Veja o que acontece por baixo disso. Bem no fundo do seu cérebro fica uma pequena estrutura chamada amígdala, que a Cleveland Clinic descreve como o seu alarme interno. A função dela é ficar de olho em qualquer ameaça e reagir antes mesmo de a parte racional do cérebro terminar de formar um pensamento. Quando ela decide que algo é perigoso, basicamente assume o controle, inundando o corpo com adrenalina e silenciando a parte mais lenta e sensata do cérebro, aquela que normalmente diria: espera aí, é só a louça. Às vezes isso é chamado de sequestro da amígdala. É por isso que uma reação pode parecer, ao mesmo tempo, totalmente automática e, minutos depois, totalmente fora de proporção.

Ter pavio curto geralmente significa que esse alarme está regulado para disparar com facilidade. Isso pode vir do temperamento, do cansaço, do estresse crônico, de uma história em que ficar em alerta o tempo todo já foi o que te manteve seguro. Nada disso te torna uma pessoa quebrada. Torna você alguém cujo sistema precisa de uma ajudinha a mais para desacelerar antes de agir.

A janela é menor do que você imagina

A verdade dura sobre os exageros é que, quando você percebe que está com raiva, muitas vezes já passou do ponto em que a lógica ajuda. Uma vez que você já está no limite, a parte racional do cérebro sai do ar. Pedir para uma pessoa nesse estado ser razoável é como pedir para alguém ler um mapa no meio de um incêndio.

É por isso que o trabalho de verdade acontece antes, no corpo. O psicólogo John Gottman, que passou décadas estudando como os casais brigam, descobriu que esse estado de sobrecarga é fisiológico. Quando você fica dominado durante um conflito, o coração acelera e o corpo se enrijece, e leva um tempo real para isso baixar de novo. Gottman aponta que a química do estresse por trás disso precisa de cerca de vinte minutos ou mais para sair do organismo. Isso não é humor. É química, e não dá para discutir mais rápido do que ela.

Então a habilidade mais útil não é uma resposta melhor na discussão. É perceber o sinal cedo e conseguir esse tempo para você.

Perceba primeiro no corpo

A sua raiva quase sempre aparece no corpo um instante antes de aparecer na boca. Aprenda a reconhecer o seu próprio aviso. Para muita gente é uma mistura de:

  • a mandíbula travando ou o rosto esquentando
  • o peito apertando, a respiração ficando curta e rápida
  • um salto no volume da voz, ou a vontade de interromper
  • aquela sensação de visão em túnel, quando de repente você só enxerga o que está errado

Isso não são sinais de que você está prestes a ganhar a discussão. São sinais de que o seu alarme disparou. Trate isso como uma luz acesa no painel. No momento em que você percebe um deles, você encontrou a única brecha real que vai ter.

O que fazer, de fato, nesse momento?

1. Nomeie para si mesmo

Uma observação silenciosa já ajuda: "Estou entrando em parafuso." Só de nomear isso, um pouco de sangue volta para a parte racional do cérebro e quebra o piloto automático.

2. Desacelere a expiração

Você não consegue racionalizar até ficar calmo, mas consegue respirar até baixar um pouco a intensidade. Algumas respirações lentas, com uma expiração longa e tranquila, avisam o corpo de que a ameaça está passando. A APA lista a respiração profunda como uma das formas mais confiáveis de reduzir a intensidade da raiva.

3. Faça uma pausa de verdade, do jeito certo

Se você sentir que está prestes a passar do limite, se afaste. O segredo está em como você faz isso. Não saia batendo pé, e não desapareça sem dizer nada, porque para a outra pessoa isso soa como castigo. Diga algo antes: "Estou nervoso demais para lidar com isso direito agora. Preciso de vinte minutos, e depois eu quero voltar a conversar." E aí, vá mesmo. Caminhe, jogue água no rosto, faça algo que não seja ficar remoendo os seus argumentos. Gottman chama isso de autoacalmento fisiológico, e os vinte minutos importam porque é mais ou menos esse o tempo que o corpo precisa para se estabilizar.

A promessa de voltar não é opcional. Uma pausa é um intervalo, não uma saída. Ela só constrói confiança se você cumprir a palavra e voltar mesmo.

4. Volte e tente de novo

Quando estiver mais calmo, diga o que você realmente queria dizer, do jeito que gostaria de ter dito. Mais calmo, mais devagar, falando da sua própria necessidade, não das falhas da outra pessoa.

O reparo é a parte que importa

Aqui está a coisa mais libertadora em tudo isso. Você vai continuar exagerando às vezes. Até quem trabalha nisso há anos ainda perde a paciência de vez em quando. O que separa relações que sobrevivem aos conflitos daquelas que apodrecem devagar não é se as rupturas acontecem. É se elas são reparadas.

A pesquisa de Gottman descobriu que o que protege uma relação é a tentativa de reparo, qualquer gesto que impeça um momento ruim de sair do controle, e a disposição de aceitar esse gesto quando ele é oferecido. Depois de um exagero, o reparo costuma ser alguma forma de assumir a responsabilidade com honestidade. Não um pedido de desculpas enorme que, no fundo, é para você se sentir melhor. Algo simples:

"Eu descontei em você e isso não foi justo. Você não merecia aquilo. Me desculpa."

Sem "mas". Sem explicar por que a outra pessoa te fez agir assim. O reparo funciona quando é só sobre o seu comportamento, ponto final. Você pode falar sobre a questão original depois, quando o clima já estiver limpo. As pessoas costumam ser bem compreensivas com quem assume os próprios exageros, e ficam bem desgastadas com quem nunca assume.

Se isso é um padrão recorrente, vale a pena falar abertamente sobre isso com as pessoas mais próximas de você, num momento de calma. Dizer para o seu parceiro ou seu filho, "estou trabalhando nas minhas reações, e quando eu peço uma pausa é para não dizer algo de que vou me arrepender", transforma o seu pavio curto de algo que acontece com eles em algo que vocês enfrentam juntos.

E se trabalhar nisso não for suficiente?

Existe um limite que vale a pena reconhecer com honestidade. Se a sua raiva já custou um emprego, assustou alguém que você ama, chegou a qualquer tipo de agressão física, ou se você vive prometendo que vai melhorar e sempre acaba no mesmo estrago, isso vai além do que um exercício de respiração dá conta de resolver. Isso não é fraqueza, e buscar ajuda não é admitir derrota. A APA aponta que pessoas com problemas sérios de raiva conseguem avanços reais com acompanhamento profissional, muitas vezes em questão de semanas.

Um médico ou terapeuta também pode investigar coisas que, silenciosamente, deixam o pavio ainda mais curto: sono ruim, ansiedade ou depressão não tratadas, traumas, o desgaste lento do estresse crônico. Às vezes a raiva diminui bastante assim que aquilo que a alimenta é identificado.

Querer parar de machucar as pessoas que você ama é um instinto bom. É exatamente por isso que você se sentiu mal naquele silêncio. Confie nesse sentimento, e dê a ele algo melhor para fazer do que a autocrítica. Na próxima vez que o alarme disparar, você vai ter alguns segundos que antes não tinha. Às vezes, alguns segundos são tudo.

Fontes

  1. American Psychological Association, Control anger before it controls you
  2. Cleveland Clinic, Amygdala
  3. The Gottman Institute, Physiological Self-Soothing
  4. The Gottman Institute, How Well Do You Repair Your Relationship?

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