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LIDERANDO COM · MOTIVAÇÃO

Motivar sem medo

Motivar sem medo funciona melhor do que a pressão a longo prazo, porque a pressão traz um resultado rápido e um custo lento. Veja o que o medo realmente faz ao esforço de uma equipe, e como gerar um desempenho de verdade com as três coisas que as pessoas precisam para dar o seu melhor.

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Um grupo diverso de colegas comemorando uma conquista num escritório.

Foto de Vitaly Gariev no Unsplash

Existe um tipo de gestor que quase todo mundo já teve pelo menos uma vez na vida. Os números estavam sempre um pouco atrasados. O tom estava sempre um pouco tenso. Você ficava até tarde, checava tudo duas vezes, entregava o que precisava ser entregue. E no dia seguinte, a régua subia, o relógio zerava e o mal-estar silencioso começava tudo de novo.

Funciona, de certa forma. E é aí que está a armadilha. O medo realmente produz um pico de esforço, e é exatamente por isso que tantos líderes seguem recorrendo a ele. Você vê a equipe se mexer. O que você não vê, ali na frente, é o preço que isso cobra, porque a conta chega depois e em outro lugar: na ideia que ninguém comentou, no erro que ninguém apontou até ficar caro, na pessoa boa que silenciosamente atualizou o currículo.

Gerar resultado e assustar pessoas não são a mesma coisa. Podem até parecer parecidos por um trimestre ou dois. Num período mais longo, eles apontam para direções opostas.

O que o medo realmente compra?

Quando as pessoas se sentem ameaçadas, elas se fecham. A atenção encolhe para o perigo imediato, o que no trabalho geralmente significa evitar culpa em vez de fazer o melhor trabalho possível. As pessoas deixam de se voluntariar. Respondem exatamente à pergunta que foi feita, não à que realmente importava. Elas se protegem primeiro, porque é isso que um animal ameaçado faz, e por baixo das reuniões e dos slides ainda somos animais.

A pesquisadora de Harvard Amy Edmondson passou décadas estudando o que ela chama de segurança psicológica, aquela sensação compartilhada de que você pode falar, fazer uma pergunta ou admitir um erro sem ser punido ou humilhado por isso. A descoberta dela, em hospitais, fábricas e escritórios, é sempre a mesma. Equipes em que as pessoas se sentem seguras para ser honestas aprendem mais rápido e têm melhor desempenho, porque as más notícias chegam a tempo de se fazer algo. Numa equipe amedrontada, a má notícia chega tarde, quando chega.

Essa é a conta real do medo como ferramenta de motivação. Você está pagando por obediência, e obediência é uma coisa muito menor do que comprometimento. Uma pessoa obediente faz o que é exigido. Uma pessoa comprometida percebe o problema que você nem pensou em perguntar e traz até você antes que ele cresça. Ninguém consegue ameaçar alguém a chegar nesse segundo comportamento. Ele só nasce de pessoas que se sentem seguras o suficiente para se importar em voz alta.

Por que a pressão sai pela culatra no próprio trabalho?

Existe um segundo problema, e ele tem a ver com a qualidade do esforço, não só a quantidade.

Décadas de pesquisa sobre motivação humana, boa parte construída pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, apontam para um padrão claro: quando as pessoas agem principalmente para escapar de uma ameaça ou correr atrás de uma recompensa pendurada na frente do nariz, a motivação delas fica frágil. Ela funciona enquanto a pressão está ligada e desmorona no minuto em que ela afrouxa. O tipo de motivação mais profundo e duradouro, o que sobrevive a uma semana ruim e produz um trabalho de verdade bom, nasce de dentro da pessoa. E depende de três necessidades sendo atendidas.

A primeira é a autonomia, a sensação de ter alguma influência real sobre como você faz o seu trabalho. Não liberdade sem limites. Só a sensação de que você é uma pessoa fazendo escolhas, não uma mão puxando uma alavanca. A segunda é a competência, a sensação de estar ficando bom em alguma coisa e conseguir ver o próprio progresso. A terceira é o pertencimento, a sensação simples e humana de que você tem lugar ali e de que as pessoas ao seu redor estão do seu lado.

O medo envenena as três de uma vez. Ele tira a autonomia, porque pessoas amedrontadas fazem exatamente o que foi mandado e nada além disso. Ele corrói a competência, porque não dá para correr os riscos que o aprendizado exige quando o fracasso é punido. E ele mata o pertencimento, porque um ambiente de trabalho em que as pessoas estão sempre se protegendo não é um lugar onde alguém se sente parte de algo. Quando você lidera pelo medo, você não está só sendo duro com as pessoas. Você está, sem perceber, esvaziando o tanque de combustível que elas precisam para funcionar.

Então como gerar resultado de verdade

Nada disso significa baixar a régua. Pelo contrário, na verdade. Os líderes que conseguem mais das pessoas costumam manter padrões muito altos e apoio muito alto ao mesmo tempo. O padrão é claro e o carinho é real, e as pessoas crescem para atender aos dois. Exigente e assustador não são a mesma coisa.

Veja como isso se traduz na prática do dia a dia.

  1. Seja claro sobre o quê, generoso sobre o como. Defina o resultado esperado, o padrão de qualidade e o prazo sem nenhuma névoa. Depois deixe as pessoas donas do caminho até lá, sempre que possível. A autonomia está na rota, não no destino. As pessoas se esforçam mais por uma meta que ajudaram a alcançar do jeito delas.
  1. Torne seguro trazer más notícias até você. A coisa mais útil que você pode fazer é recompensar quem traz a notícia. Quando alguém disser que um projeto está atrasando, agradeça, em voz alta, por ter contado logo, antes mesmo de fazer qualquer coisa sobre o atraso. Faça isso algumas vezes e a sua equipe vai começar a trazer os problemas enquanto ainda são pequenos e baratos de resolver. Puna quem trouxe a notícia uma vez, e ela vai ficar calada por um ano.
  1. Separe o erro da pessoa. "Isso saiu com um bug, vamos entender como passou" mantém a equipe pensando. "Como você deixou isso acontecer" manda todo mundo para o modo de autoproteção. A primeira frase conserta o processo. A segunda só ensina as pessoas a se esconder.
  1. Deixe as pessoas verem que estão melhorando. A competência cresce a partir de feedback específico e no tempo certo. Diga a alguém exatamente o que funcionou, não só que a apresentação "ficou ótima". Puxe a pessoa levemente além do que ela já fez antes, e depois reconheça quando ela superar isso. Progresso que a pessoa consegue realmente ver é um dos motivadores mais poderosos que existem, e não custa nada além de atenção.
  1. Conecte a tarefa a algo real. As pessoas dão mais quando entendem quem o trabalho delas ajuda e por que ele importa. Não assuma que o sentido é óbvio. Diga isso. Uma equipe que sabe por que algo importa vai resolver problemas que você nunca chegou a delegar.

Você vai notar que nenhum desses pontos é mole. Eles exigem mais disciplina do que o medo, não menos. Ameaçar as pessoas é fácil. Estabelecer um padrão alto e depois construir as condições para que as pessoas realmente consigam alcançá-lo é o trabalho mais difícil e mais hábil.

A parte honesta

Liderar sem medo não significa que não existem consequências, e não significa que todo mundo é perdoado por tudo. Responsabilização real faz parte do respeito. A diferença está no que essa responsabilização é construída sobre. A responsabilização baseada em medo diz: faça isso ou algo ruim acontece com você. A responsabilização baseada em confiança diz: a gente concordou que isso importa, estou contando com você, e vou falar com franqueza quando algo estiver fora do lugar. Uma delas encolhe as pessoas. A outra as trata como adultos capazes, e a maioria das pessoas, recebendo esse tratamento, vai se esforçar para ser digna dele.

Se você tem liderado sua equipe pela pressão, isso tem conserto, e vale dizer que você não é uma pessoa má por ter feito isso. Muita gente foi gerida assim e aprendeu que era o único jeito que existia. A mudança começa pequena. Perceba a si mesmo antes da reação seca. Agradeça a uma pessoa por uma má notícia honesta essa semana. Devolva uma decisão para quem está mais perto dela.

Os líderes para quem as pessoas dão o seu melhor, e ao lado de quem permanecem por anos, quase nunca são aqueles de quem tinham mais medo. São aqueles que foram exigentes e seguros ao mesmo tempo, que deixaram claro que o trabalho importava e que quem o fazia também importava. Essa combinação é mais rara do que devia ser. Construa isso, e você não vai precisar assustar ninguém para conseguir nada. As pessoas vão trazer o melhor delas de propósito.

Fontes

  1. American Psychological Association, Self-determination theory: A quarter century of human motivation research
  2. Harvard Business Review, What People Get Wrong About Psychological Safety (Amy C. Edmondson e Michaela J. Kerrissey)
  3. Harvard Kennedy School, The Fearless Organization: Creating Psychological Safety in the Workplace (Amy C. Edmondson)
  4. Self-Determination Theory, Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being (Ryan e Deci, 2000)

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