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LIDERANDO OS OUTROS · CONFIANÇA

A confiança como um motivador melhor que o medo

A confiança motiva melhor do que o medo porque o medo dá um resultado rápido e uma conta cara para pagar depois. A confiança demora mais para se construir, mas dura muito mais tempo. Veja o que cada um realmente causa nas pessoas que você lidera, e como escolher aquele que permanece.

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Dois homens sentados em mesas azuis

Foto de Product School no Unsplash

Existe um tipo de silêncio que toma conta de uma equipe com medo do chefe. As pessoas respondem às perguntas com cuidado redobrado. Os erros são varridos para debaixo do tapete antes que alguém importante os veja. As reuniões terminam com todo mundo balançando a cabeça, e é só depois, no corredor ou no grupo do WhatsApp sem o chefe, que a conversa de verdade acontece. Vista da sala do gestor, isso pode parecer ordem. Na maioria das vezes, é exatamente o contrário.

O medo funciona. Essa é a parte incômoda. Aposte nele e você geralmente vai conseguir um esforço extra, um prazo cumprido, um número que sobe. Quase todo mundo já conduziu alguma coisa na base da pressão pelo menos uma vez e viu dar certo. O problema não é que o medo não produza nada. O problema é o que ele custa no dia seguinte, e na semana seguinte, e o que ele tira de cena para sempre, sem fazer barulho.

O que o medo realmente compra?

Quando as pessoas estão com medo, a atenção delas se estreita para uma única tarefa: não ficar do lado errado da história. Esse instinto é mais antigo do que qualquer emprego, e é forte. Numa cultura de medo, a atitude mais segura quase nunca é a mais honesta.

Pesquisadores da Wharton que estudam esse fenômeno descrevem um padrão que deveria fazer qualquer líder parar para pensar. O medo até pode parecer motivador no curto prazo, porque enche o ambiente de urgência. Com o tempo, ele faz exatamente o oposto do que se espera. Ele sufoca a criatividade, alimenta o esgotamento e trava a colaboração da qual todo trabalho bom depende. Uma das descobertas mais duras é sobre os erros. Em culturas movidas a medo, as pessoas não cometem menos erros. Elas cometem mais, porque escondem os que já cometeram em vez de trazê-los à tona enquanto ainda dá tempo de resolver. O problema que você mais precisa ouvir é justamente aquele que sua equipe tem mais medo de contar.

Essa é a conta escondida do medo. Você acha que está comprando desempenho. Na maioria das vezes, o que você está comprando é silêncio sobre as coisas que realmente importam.

Por que as pessoas se calam?

Amy Edmondson, de Harvard, dedicou décadas a uma pergunta parecida: por que pessoas inteligentes e capazes ficam caladas quando falar claramente ajudaria? A resposta dela é que ficar em silêncio é, na maioria das hierarquias, a escolha racional. Falar carrega um risco imediato e pessoal, o de parecer bobo ou de incomodar alguém acima na hierarquia. Já o benefício de falar é difuso e chega depois, muitas vezes beneficiando outra pessoa. Por isso, todos nós criamos um critério particular para saber quando vale a pena correr esse risco, e só abrimos a boca quando temos quase certeza de que seremos bem recebidos.

O medo eleva esse critério. A confiança o baixa.

Edmondson chama essa versão mais acessível de segurança psicológica: a sensação compartilhada de que você não vai ser punido nem humilhado por fazer uma pergunta, admitir que está perdido ou soltar uma ideia ainda mal amarrada. Isso não é sinônimo de frouxidão, nem de ausência de exigência. É a condição que permite que a honestidade sequer aconteça. Sem ela, você está liderando uma equipe que, silenciosamente, decidiu que você não aguenta ouvir a verdade.

O instinto de ficar calado fica mais forte quanto mais abaixo na hierarquia a pessoa está. A pessoa mais nova da equipe, a que tem mais chance de notar aquilo que todo mundo já parou de enxergar, é também a que tem mais a perder ao dizer isso em voz alta. Então as melhores observações dela nunca chegam até você. Um líder que funciona na base do medo perde justamente a informação que poderia tê-lo salvado, e a perde primeiro.

O que a confiança faz de diferente?

A confiança parece mais lenta porque, de fato, é. Não vem com aquela descarga de adrenalina, nem com a correria. Mas ela muda as mesmas coisas que o medo muda, só que na direção oposta.

Quando as pessoas confiam em quem as lidera, elas trazem os problemas cedo, em vez de escondê-los. Elas assumem aqueles riscos pequenos e inteligentes que, no fim, viram produtos melhores. E elas ficam. Pesquisas da psicologia organizacional ligam a confiança no trabalho a menos estresse, mais satisfação profissional, motivação mais forte e, o que mais interessa aos líderes, mais produtividade e trabalho de melhor qualidade. Os mesmos estudos conectam a confiança a dois dos motores mais profundos que temos como seres humanos: a sensação de ter alguma palavra real sobre o próprio trabalho, e a sensação de que se é bom naquilo que se faz. Dê isso às pessoas, e a motivação tende a nascer de dentro delas, em vez de precisar ser reaplicada de fora o tempo todo.

Esse é o verdadeiro contraste. O medo é uma força que você precisa ficar reaplicando, porque, no momento em que ele diminui, o esforço que ele sustentava desaba junto. A confiança, ao contrário, se acumula. Cada vez que você se mostra alguém seguro para contar a verdade, as pessoas arriscam um pouco mais, a equipe fica um pouco mais honesta, e o trabalho fica um pouco melhor. Você deixa de empurrar. Passa a construir algo que caminha com as próprias pernas.

Como liderar assim de propósito?

Nada disso é sobre ser mole, baixar o nível de exigência ou nunca se decepcionar com nada. Dá para manter um padrão bem alto e, ao mesmo tempo, ser alguém seguro para errar na frente. Veja como as duas coisas se encaixam na prática.

  • Trate bem quem traz a notícia ruim, sempre, sem exceção. Na primeira vez que alguém te trouxer uma má notícia e sair mordido por isso, você ensinou a equipe inteira a parar de falar. Agradeça pelos avisos antecipados, mesmo quando o aviso estragar sua tarde. Principalmente nesses casos.
  • Separe a exigência da ameaça. "Isso precisa ficar excelente, e eu vou te ajudar a chegar lá" puxa as pessoas para frente. "É bom que isso fique excelente" as deixa cautelosas e encolhidas. É o mesmo padrão, mas com um combustível completamente diferente.
  • Assuma os próprios erros em voz alta. Um líder que diz "eu errei nessa decisão" dá a todo mundo permissão para ser humano e para se recuperar. As pessoas espelham a franqueza que veem em quem está no topo.
  • Faça perguntas de verdade e, depois, escute de verdade. "O que estou deixando passar aqui?" só funciona se a pessoa que responder sair da conversa feliz por ter falado. O que vem depois da pergunta importa mais do que a pergunta em si.
  • Dê espaço para as pessoas serem donas do próprio trabalho. As pesquisas sobre confiança sempre chegam à autonomia. Mostre às pessoas como é um bom trabalho e por que ele importa, depois deixe que elas encontrem o próprio caminho até lá. Ser confiado com decisões reais é um dos motivadores mais fortes que existem, e não custa nada.
  • Seja consistente. A confiança se constrói menos com grandes gestos e mais com o fato de você ser a mesma pessoa num dia ruim e num dia bom. É a previsibilidade que permite que as pessoas parem de ficar na defensiva.

A versão disso que dura

Pense nos líderes que você seguiria de novo sem pensar duas vezes. Quase nenhum deles funcionava na base do medo. Eram aqueles firmes, que diziam a verdade e sabiam admitir quando erravam, que confiavam a você algo real e ficavam genuinamente contentes quando você correspondia. Você trabalhava duro por eles, e isso não parecia um peso.

O medo consegue levar você por um trimestre. Ele não consegue sustentar uma equipe por anos, porque vai gastando justamente aquilo sobre o que esses anos são construídos. A confiança é o caminho mais lento, e é o único que mantém as pessoas honestas, atentas e ainda ao seu lado quando a próxima dificuldade chegar. Isso vale mais do que qualquer arrancada que você conseguisse tirar delas com medo.

Fontes

  1. Knowledge at Wharton, Does Fear Motivate Workers, or Does It Make Things Worse?
  2. Harvard Business Review, Creating Psychological Safety in the Workplace (entrevista com Amy Edmondson)
  3. Society for Industrial and Organizational Psychology, Organizational Trust Leads to Positive Employee and Organizational Outcomes

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