Se você está em crise ou pensando em se machucar, você não está sozinho. Nos EUA, ligue ou mande mensagem para 988 (Suicide & Crisis Lifeline, 24/7), mande HOME para 741741 (Crisis Text Line), ou ligue para 911 em uma emergência. Em qualquer lugar do mundo, o findahelpline.com lista linhas de apoio gratuitas e confidenciais no seu próprio país e no seu próprio idioma. Se você estiver em perigo imediato, ligue para o número de emergência da sua região.
Um convite de casamento chega pelo correio. Uma amiga pergunta, com delicadeza, se você "está ficando com alguém". Numa mesa de fim de ano todo mundo está em casal e depois tem você. O mundo tem um jeito de lembrar as pessoas solteiras de que estão solteiras, geralmente bem na hora em que elas tinham parado de pensar nisso.
Se algo disso ressoou, você não está imaginando essa pressão. Existe uma mensagem cultural persistente de que um parceiro romântico é a linha de chegada, e que tudo antes dele é só uma sala de espera. Essa mensagem é alta, é antiga, e está quase toda errada sobre o que realmente faz uma vida valer a pena.
Queremos ser sinceros aqui, porque fingir cansa. Tem dia em que a vida de solteiro parece ampla e livre. Tem dia em que parece um lado da cama frio e um celular que não vibra. As duas coisas podem ser verdade na mesma semana. Isto não é um discurso motivacional dizendo que estar sozinho é secretamente incrível e que você deveria se sentir grato. É um olhar mais de perto para o que está realmente acontecendo, e o que dá para fazer com isso.
O que as pesquisas continuam errando sobre nós, e o que elas acertam?
Por muito tempo, as histórias que contamos sobre pessoas solteiras vieram de estudos que comparavam pessoas casadas com todo o resto e chamavam a diferença de "benefício do casamento". A psicóloga social Bella DePaulo passou décadas questionando isso. O trabalho dela sobre o que chama de solteiro de coração descreve pessoas que florescem *porque* são solteiras, não apesar disso. Num estudo de longa duração que ela cita, as pessoas que não estavam tentando escapar da solteirice ficaram mais felizes com a vida ao longo dos anos. As que estavam ansiando por um parceiro ficaram menos satisfeitas.
Vale ler duas vezes, porque a ordem importa. Não foi estar solteiro que deixou as pessoas infelizes. Foi querer estar em outro lugar.
Aqui está a parte que merece atenção. Um estudo cuidadoso com jovens adultos solteiros e em relacionamento descobriu que as pessoas solteiras relataram sim mais solidão *romântica*, aquela falta específica de um parceiro. Mas na solidão social simples, aquela sensação do dia a dia de estar conectado às pessoas, não houve diferença real entre quem era solteiro e quem estava em relacionamento. O que protegia contra essa dor romântica não era arrumar um parceiro. Era ter apoio forte da família e das pessoas mais importantes na vida.
Ou seja, o problema nunca foi "estar solteiro". É que um tipo específico de proximidade pode parecer que está faltando, e esse tipo pode ser suprido, em parte, de mais de uma forma.
Sua vida já tem amor nela
A maior armadilha de estar solteiro é tratar um parceiro romântico como o único relacionamento que conta. Não é, e o estudo mais longo que existe sobre felicidade humana confirma isso claramente.
O Harvard Study of Adult Development acompanha as mesmas pessoas há mais de oitenta anos, observando o que realmente prevê uma velhice saudável e satisfeita. A conclusão que o diretor do estudo repete sem rodeios é direta: relacionamentos próximos, mais do que dinheiro ou fama, são o que mantêm as pessoas felizes ao longo da vida. Não casamentos, especificamente. Relacionamentos. O amigo que conhece toda a sua história. O irmão para quem você manda mensagem sem pensar duas vezes. O vizinho que rega suas plantas. O estudo descobriu que a satisfação com os relacionamentos aos cinquenta anos previa a saúde física aos oitenta melhor do que o colesterol.
Nenhum desses laços exige um parceiro romântico. Todos eles estão disponíveis para você agora mesmo.
Essa é uma boa notícia, porque coloca o trabalho em algo que você realmente controla. Você não consegue fazer a pessoa certa aparecer num prazo determinado. Mas pode ligar para aquele amigo que estava adiando. Algumas coisas que costumam ajudar:
- Trate suas amizades como algo estrutural na sua vida, porque elas são. Coloque-as na agenda. Seja você quem organiza os encontros. Quem sempre toma a iniciativa raramente fica sem gente por perto.
- Construa pequenos rituais que se repetem com outras pessoas. Uma caminhada semanal, um jantar fixo, uma aula que você não falta. A proximidade se constrói mais pela repetição do que pela intensidade.
- Deixe as pessoas te ajudarem, e peça ajuda quando precisar. Carregar tudo sozinho não é força, é só peso. Deixar alguém estar presente para você é como um laço se aprofunda.
- Amplie o que conta como intimidade. Ser profundamente conhecido por um amigo, um parente, um grupo de WhatsApp de anos, isso é proximidade de verdade, e o seu corpo não distingue se é romântico ou não.
O tempo sozinho não é o inimigo. Pode até ser o ponto principal.
Existe uma diferença entre estar sozinho e se sentir solitário, e é fácil confundir os dois quando se mora só.
A solidão é um sentimento, o espaço entre a conexão que você tem e a que você deseja. A solitude é apenas estar por conta própria. Dá para se sentir profundamente solitário numa sala cheia de gente, e dá para se sentir plenamente bem sozinho num sábado de chuva. Psicólogos que estudam isso traçam uma linha clara entre os dois, e descobriram que o tempo a sós escolhido faz bem de verdade. Segundo pesquisadores destacados pela American Psychological Association, pequenos períodos de solitude acalmam as emoções mais intensas, tanto as ansiosas quanto as agitadas de euforia, e abrem espaço para as mais quietas: relaxamento, reflexão, a sensação de ser você mesmo.
A palavra-chave ali é *escolhido*. Solitude que você escolhe parece descanso. Solitude que te é imposta parece exílio. As mesmas horas, experiências completamente diferentes.
Para quem é solteiro, isso é uma vantagem real, e a maioria de nós nunca aprendeu a usá-la. Você pode planejar um dia inteiro em torno do que quer. Pode ficar bom na sua própria companhia. Pessoas que se sentem bem sozinhas não estão se conformando com menos, elas têm um chão firme que não depende da agenda de mais ninguém.
Um pequeno exercício
Na próxima vez que tiver uma noite livre, tente não preencher cada minuto dela. Resista ao impulso de anestesiar a mente na tela assim que o silêncio bater. Cozinhe algo com calma. Caminhe sem podcast nenhum. Perceba o que a sua própria mente faz quando você para de afogá-la em estímulo. No começo, parte disso vai incomodar. Esse incômodo costuma virar algo mais parecido com paz, e essa paz é sua para guardar.
Quando a dor é mais do que um dia ruim?
Agora a ressalva honesta, porque nem tudo isso se resolve com uma nova perspectiva e um jantar marcado toda semana.
Existe uma diferença entre uma noite que parece meio vazia e uma solidão que se instalou e não vai embora. Preste atenção se o peso está presente na maioria dos dias, e não só às vezes. Se você se afastou de pessoas de quem gostava. Se não está conseguindo dormir, ou está dormindo o tempo todo. Se comida, bebida ou o celular viraram o jeito principal de atravessar a noite. Se uma voz na sua cabeça começou a dizer que você é inamável, que isso é permanente, ou que ninguém notaria se você sumisse.
Esse último ponto merece atenção especial. Solidão que vira desesperança é algo a ser levado a sério, e é exatamente para isso que existe um terapeuta ou um médico. Pedir ajuda não é admitir que você fracassou em ser solteiro. É a mesma coisa que você diria para um amigo fazer, só que voltada para você mesmo.
E se em algum momento você sentir que pode não estar seguro consigo mesmo, por favor, não segure isso sozinho. Fale com alguém hoje. Uma linha de crise, um médico, uma pessoa que te ama. As informações no rodapé e nas laterais desta página estão aí exatamente para isso, a qualquer hora, sem hora marcada.
Ser solteiro não é um problema a ser resolvido antes da sua vida de verdade começar. Sua vida de verdade é essa que você já está vivendo. O trabalho não é achar alguém para completá-la. É preenchê-la com as pessoas, os ritmos e o silêncio que já são seus.
Fontes
- Harvard Gazette, Good genes are nice, but joy is better
- American Psychological Association, Speaking of Psychology: The benefits of solitude
- Bella DePaulo, Single at Heart
- Current Psychology / PMC, An Investigation of Loneliness and Perceived Social Support Among Single and Partnered Young Adults