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Atividade física

Caminhar como exercício de verdade

Caminhar costuma ser tratado como o que você faz quando está fora de forma demais para um exercício de verdade. A ciência diz o contrário. Uma caminhada regular e em bom ritmo é uma das coisas mais poderosas e baratas que você pode fazer pelo seu corpo e pela sua mente.

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Uma mulher fazendo exercícios numa academia

Foto de SUNDAY II SUNDAY no Unsplash

Existe um certo esnobismo silencioso em relação a caminhar. As pessoas falam disso como falam da água durante a refeição: tudo bem, inofensivo, mas não é o prato principal. O prato principal, dizem, deveria ser suor, halteres e uma frequência cardíaca que dá um pouco de medo.

Caminhar não tem nada desse drama, e é exatamente por isso que funciona. É de graça. Não precisa de equipamento, de mensalidade, de nenhuma técnica que você tenha que aprender. Você já sabe fazer. Dá para caminhar cansado, de roupa comum, num dia ruim, quando mais nada parece possível. E a ciência sobre o que isso faz pelo corpo e pelo humor é genuinamente impressionante quando você olha de perto.

Vamos dar à caminhada o crédito que ela merece.

O que uma caminhada regular faz pelo seu corpo?

Vamos começar pelo coração. Caminhar em ritmo acelerado e com regularidade ajuda a reduzir o LDL (aquele colesterol que é melhor ter em menor quantidade), ajuda a controlar a pressão arterial e, com o tempo, torna o coração mais eficiente, diminuindo sua frequência cardíaca em repouso. A Cleveland Clinic observa que quem caminha regularmente tende a ter menos infartos e derrames. Esse não é um efeito qualquer. É o tipo de proteção que as pessoas correm atrás com rotinas muito mais pesadas e difíceis de manter.

O açúcar no sangue também responde. Uma caminhada curta depois de uma refeição, mesmo que de poucos minutos, ajuda a suavizar o pico de glicose que a comida provoca. Para quem precisa cuidar da glicemia, esse pequeno hábito se traduz em números mais estáveis. E o ritmo parece importar aqui: a Harvard Health relatou que sair de um passo tranquilo para um passo mais acelerado está associado a um risco consideravelmente menor de desenvolver diabetes tipo 2.

Tem mais, e é justamente aquela parte discreta que, aos poucos, molda uma velhice melhor. Caminhar lubrifica e exercita as articulações de um jeito suave que ajuda a mantê-las móveis. Coloca pressão suficiente nos ossos para ajudar a desacelerar a perda óssea que vem com a idade. Dá um empurrãozinho no sistema imunológico. Costuma melhorar a profundidade e a qualidade do sono. Nada disso parece dramático num dia isolado. Somado ao longo dos anos, é a diferença entre um corpo que aguenta e um que não aguenta.

Você não precisa de 10 mil passos

A meta de 10 mil passos que vive em todo relógio inteligente tem uma base surpreendentemente frágil. Ela vem de um slogan de marketing, não de um estudo. E as pesquisas feitas desde então trazem alívio para quem nunca chegou nem perto desse número.

Grandes estudos que acompanharam pessoas de verdade descobriram que os benefícios de caminhar para a saúde começam bem abaixo de 10 mil passos e crescem mais rápido justo nas quantidades menores. Em uma análise bastante citada, pessoas que caminhavam cerca de 4.400 passos por dia tinham um risco consideravelmente menor de morrer durante o período do estudo do que aquelas que quase não se moviam, e esse benefício continuava aumentando até por volta de 7.500 passos, ponto em que começava a estabilizar. Outras pesquisas apontam ganhos significativos ao sair de contagens muito baixas e chegar perto de 8 mil.

A lição não é correr atrás de um número mágico. É que sair de pouco para um pouco mais é o que mais importa. Se hoje você dá 3 mil passos por dia, chegar a 5 mil faz mais diferença para a sua saúde do que alguém que já anda 10 mil passos adicionar mais mil. É lá embaixo, no começo da curva, que está o ouro.

E a velocidade importa menos do que as pessoas temem. O que conta é o movimento total ao longo do dia. Um ritmo mais rápido soma alguma coisa, mas você não precisa correr. Só precisa caminhar, e caminhar com uma certa frequência.

O que caminhar faz pela sua mente?

É aqui que voltamos ao motivo pelo qual uma vida tranquila e um corpo em movimento andam juntos. Caminhar é um dos reguladores de humor mais simples que existem. Eleva a frequência cardíaca só o suficiente, libera as próprias substâncias do bem-estar produzidas pelo corpo e baixa o nível de estresse. A Cleveland Clinic descreve isso de forma simples: caminhar aumenta sua frequência cardíaca e diminui seu estresse ao mesmo tempo.

Há algo específico em caminhar, além do benefício geral do exercício. O ritmo constante parece acalmar uma mente agitada. Um problema em que você vinha remoendo na mesa de trabalho costuma perder força assim que você está lá fora, se movendo. A preocupação tem menos com o que se alimentar quando o corpo está ocupado e os olhos estão vendo outra coisa além de uma tela. Muita gente descobre que é durante a caminhada que pensa com mais clareza, e é aí que a tensão do dia finalmente sai dos ombros.

Caminhe ao ar livre e você soma um segundo benefício: a luz do dia e o verde ao redor têm um efeito calmante próprio. Você não precisa de uma floresta. Uma rua arborizada, uma volta no parque, o caminho mais longo até em casa, qualquer um desses já ajuda.

Como fazer isso virar hábito

O truque com a caminhada não é a intensidade. É conseguir fazer acontecer nos dias em que você não está a fim. Algumas coisas ajudam:

  1. Encaixe num hábito que você já tem. Uma caminhada logo depois do almoço, assim que chegar em casa, ou enquanto o café coa. Ligar isso a um hábito que já existe tira de você a necessidade de decidir toda vez.
  2. Torne agradável, não uma obrigação virtuosa. Leve um podcast, um audiolivro, música, ou a companhia de alguém de quem você gosta. Uma caminhada que você tem vontade de fazer é uma caminhada que você vai repetir.
  3. Diminua a exigência nos dias difíceis. Cinco minutos contam. Dar uma volta no quarteirão conta. Nos dias difíceis, a meta é só não quebrar a sequência, não bater um número.
  4. Quando der, acelere o passo. Busque um ritmo em que você consiga conversar, mas não cantar. Nos dias em que isso for demais, vá mais devagar. Uma caminhada lenta ainda é melhor do que ficar no sofá.
  5. De vez em quando, caminhe acompanhado. A companhia transforma exercício em conexão, e conexão é, por si só, um remédio para uma mente que está sofrendo.

Você não precisa reformular a semana inteira. Encontre os 20 minutos que já estão soltos no seu dia e coloque uma caminhada ali. Depois, faça de novo amanhã.

Um aviso sobre começar e sobre seus limites

Caminhar é praticamente o exercício mais seguro que existe, e essa é parte da sua beleza. Ainda assim, se você tem alguma condição cardíaca ou pulmonar, problemas nas articulações, questões de equilíbrio, ou ficou muito tempo sem se movimentar, vale conversar rapidamente com seu médico antes de aumentar o ritmo ou a distância, para que o plano se ajuste ao seu corpo. Se sentir dor no peito, falta de ar fora do comum, tontura ou dor forte nas articulações durante a caminhada, pare e procure avaliação médica.

Comece mais curto e mais devagar do que você acha necessário. Vá aumentando um pouco a cada semana. Um bom calçado ajuda mais do que as pessoas imaginam, especialmente se você for caminhar em calçadas duras.

Caminhar não vai pedir muito de você. E esse é justamente o ponto. O treino mais pesado, que você vai acabar largando, faz menos pela sua saúde e pela sua paz de espírito do que aquele exercício simples que você ainda vai estar fazendo daqui a um ano. Caminhar é o exercício simples. Calce o tênis.

Fontes

  1. Cleveland Clinic, Sole Searching: Learn About the Health Benefits of Walking
  2. National Institutes of Health, How many steps for better health?
  3. Harvard Health, Will walking faster reduce your diabetes risk?
  4. National Institutes of Health, Number of steps per day more important than step intensity

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