Imagine uma terça-feira à noite. Um de vocês se aproxima na cama, com esperança. O outro já está quase dormindo, ou estressado com o dia seguinte, ou simplesmente não está no clima. Um "não" discreto. Depois, um silêncio compartilhado olhando para o teto, em que uma pessoa se sente rejeitada e a outra se sente pressionada, e nenhuma das duas diz nada sobre isso.
Esse momento, repetido durante meses, é o que a maioria dos casais quer dizer quando fala que o desejo sexual dos dois não combina. O nome clínico para isso é discrepância de desejo, e se isso está acontecendo com você, a primeira coisa que vale saber é que você não está sozinho, ou sozinha, nisso. É um dos motivos mais comuns pelos quais casais buscam ajuda, e uma diferença no nível de desejo está muito mais perto da regra do que da exceção. Dificilmente duas pessoas vão querer a mesma coisa, com a mesma intensidade, no mesmo momento, para sempre. O problema não é a diferença em si. O problema é o que se faz com ela.
Talvez vocês sejam programados para desejar de formas diferentes
Boa parte da dor nessa situação vem de uma suposição escondida: a de que o desejo funciona do mesmo jeito para todo mundo, então, se o seu parceiro ou parceira não toma a iniciativa, é porque não quer você.
Essa suposição costuma estar errada, e quem pesquisa sexualidade tem uma visão bem mais clara sobre isso. Existem basicamente duas formas de o desejo aparecer. Algumas pessoas sentem desejo espontâneo, aquela faísca que surge do nada, antes de qualquer coisa acontecer. Outras sentem desejo responsivo, que aparece depois que a proximidade e o prazer já começaram, não antes. Quem tem desejo responsivo muitas vezes não está "no clima" quando o momento começa. A vontade vai chegando através do toque, do carinho e da sensação de segurança, e só depois o desejo alcança.
Um jeito não é melhor que o outro. São só portas diferentes para o mesmo lugar. E, em geral, essa diferença segue um padrão conhecido. Pesquisas mostram que o desejo espontâneo é bem mais comum em homens, enquanto o desejo responsivo é mais comum em mulheres, embora muita gente seja a exceção. Por isso, um descompasso extremamente comum é o de uma pessoa com desejo espontâneo que fica esperando a parceira ou o parceiro, de desejo responsivo, sentir a faísca primeiro. Os dois estão esperando. Ninguém está errado. Eles só têm pontos de partida diferentes, e nunca ninguém explicou isso para eles.
Se isso é novidade para você, dê um tempo para essa ideia. Muita coisa que parece "meu parceiro não me quer" é, na verdade, "meu parceiro me quer de um jeito diferente do que eu esperava".
O que alimenta essa diferença?
O desejo não é uma configuração fixa. Ele muda junto com toda a sua vida, e uma fase de desejo mais baixo quase sempre tem uma causa, não vem do nada.
As causas vão se acumulando, muitas vezes em silêncio:
- Exaustão, estresse e a carga mental do trabalho e dos filhos. Sentir desejo exige um pouco de energia sobrando, e muita gente já não tem nenhuma às 22h.
- Saúde e hormônios. Gravidez, menopausa, problemas de tireoide, depressão e dor crônica, tudo isso muda o desejo. O mesmo vale para remédios comuns, incluindo muitos antidepressivos e medicamentos para pressão alta. A Cleveland Clinic lista essas situações como causas comuns e tratáveis de baixo desejo sexual, não como falhas de caráter.
- O próprio relacionamento. Distância, ressentimentos não resolvidos ou simplesmente nunca ter um tempo tranquilo junto derrubam o desejo mais rápido do que quase qualquer outra coisa.
- O ciclo que o próprio descompasso cria. Esse aqui é traiçoeiro. A pessoa com mais desejo, cansada de ser recusada, começa a tomar a iniciativa com mais frequência ou mais ansiedade. A pessoa com menos desejo, sentindo essa pressão, se afasta ainda mais. Cada movimento piora o do outro. Rapidinho, todo toque passa a carregar uma pergunta implícita, e até o carinho sem intenção sexual passa a ser evitado, porque pode ser interpretado como um pedido.
Esse último ciclo merece ser dito em voz alta, porque, uma vez que ele começa a rodar, pode parecer que o casal tem um problema de desejo, quando na verdade tem um problema de pressão e fuga em cima de uma diferença comum.
O que realmente ajuda?
Quando as pesquisadoras Laura Vowels e Kristen Mark estudaram como os casais lidam com a discrepância de desejo, encontraram algo esclarecedor. A estratégia que funcionou pior foi não fazer nada, esperar e torcer para que isso passasse. As abordagens que mais ajudaram foram aquelas que o casal fazia junto: conversar abertamente sobre o assunto e ampliar o que conta como intimidade, em vez de tratar a relação sexual como o único objetivo possível. A conclusão é simples. Evitar o assunto é a única estratégia que quase sempre sai pela culatra.
Então o trabalho, na maior parte, é transformar um impasse silencioso em algo que vocês enfrentam como um time.
Conversem fora da cama. O pior momento para discutir isso é no calor do momento, quando é sim ou não. Traga o assunto durante uma caminhada, no carro, em algum lugar tranquilo e com roupa. Comece falando do que você sente e do que você quer, não de uma reclamação sobre o outro. "Eu sinto falta de me sentir perto de você" chega de um jeito bem diferente de "você nunca mais me quer".
Separe o carinho do sexo. Se todo abraço ou toque nas costas passou a significar "então, vamos?", a pessoa com menos desejo aprende a evitar tudo isso. Combinem, em voz alta, que o toque pode ser só toque. Só isso já tira uma pressão enorme do ambiente e, muitas vezes, torna mais fácil encontrar o desejo verdadeiro de novo.
Abram espaço para o desejo responsivo. Se um de vocês só entra no clima depois que as coisas começam, e não antes, esperar sentir vontade primeiro pode significar esperar para sempre. Estar aberto à proximidade, sem a pressão de chegar a um final específico, abre essa porta responsiva. O acordo que importa aqui é: começar algo pode não levar a lugar nenhum, e está tudo bem. O que importa é o prazer e a conexão, não cumprir uma meta.
Amplie a definição de intimidade. Sexo não é um único ato. Abraçar-se, ter tempo, dar atenção sem pensar em chegar a algum lugar, tudo isso também é proximidade. Casais que deixam de medir a relação pela frequência e passam a prestar atenção na qualidade da conexão costumam se sentir melhor rapidamente.
Esqueça o placar. Pensar "já faz nove dias" não ajuda ninguém. Contar transforma o outro em adversário. O objetivo não é vencer essa diferença nem equilibrá-la com perfeição. É continuar querendo o bem-estar um do outro enquanto vocês descobrem um ritmo que funcione para os dois.
Nada disso significa que a pessoa com menos desejo deva se forçar, ou que a pessoa com mais desejo deva engolir todas as suas necessidades. As duas coisas geram ressentimento. O importante é sair do ciclo de silêncio e tratar essa diferença como um quebra-cabeça a ser resolvido junto, e não como um veredito sobre o relacionamento.
Quando vale a pena buscar ajuda?
Parte disso pode ser resolvida em casa, com paciência e sinceridade. Outra parte não pode, e buscar ajuda é uma atitude inteligente, não um último recurso.
Se o desejo caiu de repente ou veio junto com outras mudanças no corpo, no humor ou na energia, comece procurando um médico ou médica. Muitas histórias de baixo desejo acabam tendo uma causa física ou relacionada a medicamentos, que é bem tratável depois de identificada. A recomendação direta da Cleveland Clinic é procurar um profissional de saúde quando o baixo desejo sexual estiver afetando o seu bem-estar ou o seu relacionamento.
Se as conversas continuam desandando, ou se o ciclo de pressão e fuga já se transformou em ressentimento, um terapeuta de casal com formação em terapia sexual pode ajudar mais do que quase qualquer coisa que você vá ler por aí. É o trabalho dessas pessoas. Elas conseguem dar aos dois palavras para coisas que parecem impossíveis de dizer na mesa da cozinha, e um espaço neutro para dizer isso. Querer esse tipo de ajuda não significa que o relacionamento está fracassando. Casais que se importam um com o outro e querem continuar próximos são exatamente os que buscam esse apoio.
E se essa diferença de desejo estiver envolvida em algo mais pesado, coerção, medo, ou a sensação de não estar seguro ou segura com o parceiro em relação ao sexo, isso já não é mais um descompasso para negociar. Isso merece apoio de verdade, de alguém preparado para ajudar, e a sua segurança vem primeiro.
Os casais que superam isso não são os que, por acaso, desejam sexo exatamente na mesma medida. São os que deixaram de guardar essa diferença em silêncio e voltaram a se falar como um time. A diferença talvez nunca desapareça completamente. Mas a distância entre vocês não precisa crescer dentro dela.
Fontes
- National Center for Biotechnology Information, Strategies for Mitigating Sexual Desire Discrepancy in Relationships (Vowels & Mark)
- Medical News Today, Mismatched sex drives: Relationships and coping
- Cleveland Clinic, Low Libido (Low Sex Drive) Causes & Treatment
- The Gottman Institute, The Perpetual Problem of Mismatched Sex Drives