Alguém diz: "Ei, você esqueceu de retornar a ligação pro encanador", e um pequeno fogo se acende no seu peito. Você não decidiu sentir isso. Ele simplesmente aparece. E as palavras que saem depois não são realmente sobre o encanador. São sobre como sua semana foi cheia, como você não pode ser cobrado por lembrar de tudo, como a outra pessoa também poderia ter ligado.
Isso é defensividade. Quase todo mundo faz isso sem perceber, geralmente com as pessoas mais próximas, e geralmente bem no momento em que um pouco de honestidade teria ajudado.
A boa notícia é que isso é um reflexo, não um defeito de caráter. Reflexos podem ser interrompidos quando você aprende a reconhecer a sensação por dentro.
O que é isso, na prática?
Defensividade é autoproteção. O Gottman Institute, que estuda casais há décadas, descreve o comportamento como uma forma de se defender de um ataque percebido através de indignação justificada ou de um sentimento de vítima inocente. Tirando a linguagem técnica, tudo se resume a uma mensagem que você manda quando se sente encurralado: *o problema não sou eu, é você.*
Essa mensagem pode ser alta ou baixa. Às vezes é um contra-ataque. Às vezes é um "tá bom, então sou uma pessoa terrível" ferido. Às vezes é uma lista de motivos, entregue com muita calma, que somados dizem *isso não é culpa minha.* A forma varia. A função é a mesma. Você está tentando fazer o desconforto parar sem precisar olhar para o que a outra pessoa acabou de colocar na mesa.
E é aqui que isso importa para quem você ama. Os pesquisadores do Instituto Gottman descobriram que a defensividade é um dos padrões que mais desgastam um relacionamento com o tempo. Não porque alguém está sendo cruel, mas porque a defensividade fecha a porta para a conversa real. Seu parceiro ou parceira trouxe algo verdadeiro. Você devolveu na mesma hora. Agora tem duas pessoas chateadas e o encanador continua sem retorno.
Por que o corpo chega lá antes de você?
O motivo de isso ser tão difícil de controlar é que, na verdade, isso não acontece na parte pensante do cérebro. Acontece num nível mais baixo e mais rápido do que esse.
Quando um feedback chega como ameaça, o corpo reage como reagiria a qualquer ameaça. O coração acelera. A atenção estreita. Você para de ouvir a outra pessoa e começa a caçar provas de que está certo. O psicólogo Daryl Van Tongeren, escrevendo para o Greater Good Science Center da UC Berkeley, aponta alguns motores silenciosos por trás disso tudo: queremos estar certos, queremos certeza num mundo incerto, e tendemos a filtrar o que ouvimos pelo que já acreditamos. A crítica sacode as três coisas de uma vez.
Muitas vezes existe uma camada mais profunda também. Se alguma parte de você suspeita que um único erro prova que você não é bom o suficiente no fundo, então até um feedback gentil parece um veredito. Você não está se defendendo do comentário. Está se defendendo do que teme que o comentário diga sobre você.
E é exatamente por isso que a solução não é "se esforçar mais para manter a calma". É algo que acontece antes disso.
Pegando no meio segundo que você tem
A defensividade tem um sinal. Ela quase sempre se anuncia no corpo antes de chegar à boca, e essa brecha, mesmo que curtinha, é onde sua liberdade mora.
Aprenda a reconhecer os seus próprios sinais. Para muita gente é um aperto repentino no peito ou na mandíbula, uma onda de calor, ou aquela sensação específica de já estar montando uma resposta enquanto a outra pessoa ainda está falando. Esse último é o que vale mais a pena observar. No instante em que você percebe que está ensaiando a resposta em vez de escutar, você já pegou o momento.
Quando sentir isso, faça menos, não mais.
- Pare de falar. A primeira frase defensiva é a que causa o estrago. Se você conseguir simplesmente não dizê-la, você já mudou o desfecho.
- Respire lento, uma vez. Uma expiração longa avisa o corpo de que a emergência não é real. Você precisa que o corpo esfrie um pouco antes que o seu discernimento volte.
- Ganhe um instante. "Deixa eu pensar um pouco sobre isso" é uma frase completa e honesta. Quase nada, numa conversa difícil, exige resposta na hora.
- Pergunte em vez de discutir. "Você pode me explicar melhor o que quer dizer?" transforma um impasse de volta em conversa, e ainda te dá tempo para ouvir aquilo que você estava prestes a atropelar.
Nada disso exige que você concorde. Só mantém a porta aberta o suficiente para descobrir se há algo verdadeiro no que foi dito.
O movimento que resolve: encontre a parte que é verdade
O antídoto que o trabalho do Gottman aponta é surpreendentemente simples. Assuma a sua parte. Mesmo que seja pequena.
Isso confunde muita gente porque as pessoas ouvem "assuma a responsabilidade" como "admita que está completamente errado". Não é isso. Quase toda queixa tem um fiapo de verdade dentro, e você só precisa reconhecer esse fiapo. "Você tem razão, eu esqueci mesmo, e entendo por que isso é frustrante." É só isso. Você não cedeu na discussão inteira. Não concordou que é um parceiro ou parceira ruim. Só reconheceu a única coisa verdadeira, e é esse reconhecimento que permite que a outra pessoa pare de insistir.
Algo muda quando você faz isso. A outra pessoa chegou pronta para uma briga e encontrou concordância. A temperatura cai. Agora são duas pessoas olhando para um problema juntas, em vez de duas pessoas que *são* o problema uma para a outra.
Douglas Stone e Sheila Heen, que lecionam sobre conversas difíceis em Harvard e escreveram *Thanks for the Feedback*, descrevem um hábito útil para os casos mais difíceis: separar a mensagem de quem a entrega. Quando um feedback vem de alguém que te irrita, ou vem de forma tosca, é fácil descartar tudo por causa de como chegou. O conselho deles é olhar além da entrega e perguntar se há algo que vale aprender ali mesmo assim. O feedback pode estar mal formulado e ainda ser parcialmente certo.
Construindo a versão de longo prazo
Pegar a defensividade no momento é a habilidade do jogo em si. Existe também um trabalho mais lento que facilita esse momento, e ele acontece principalmente quando ninguém está te criticando.
- Faça as pazes com a sua própria imperfeição, de propósito. Quanto mais à vontade você estiver com as suas próprias falhas, menos qualquer feedback isolado consegue te derrubar. Van Tongeren nomeia isso diretamente: quando você já fez as pazes com o fato de que tem limitações, ouvir sobre uma delas machuca menos.
- Conheça as suas tendências. Stone e Heen sugerem observar os próprios padrões na hora de receber feedback, porque, uma vez que você consegue ver a sua reação de sempre chegando, você pode escolher uma diferente.
- Separe "eu fiz uma coisa errada" de "eu sou uma pessoa má". Essas duas coisas parecem idênticas no calor do momento e não são a mesma coisa. Você pode ter cometido um erro e ainda ser uma boa pessoa. Segurar as duas ideias ao mesmo tempo é a maior parte da habilidade.
- Lembre-se do que você está protegendo. O instinto de se defender está tentando te manter seguro. Num relacionamento que importa, o que realmente vale a pena proteger é o próprio relacionamento, e ele é mais bem cuidado com escuta do que com vitória.
Quando isso é maior do que um hábito?
Às vezes a defensividade é mais do que um reflexo que se supera com prática. Se até um feedback leve costuma te derrubar por horas ou dias, se você se sente incapaz de ouvir uma preocupação de qualquer pessoa sem se sentir atacado, ou se o padrão continua prejudicando relacionamentos mesmo com todo o seu esforço, vale levar isso a sério em vez de só tentar segurar na força de vontade.
Muitas vezes existe uma história sensível por trás desse nível de reatividade, e um bom terapeuta pode te ajudar a chegar até ela com mais segurança do que você conseguiria sozinho. A terapia de casal também pode ajudar quando duas pessoas continuam presas no mesmo ciclo e não conseguem encontrar a saída por conta própria. Buscar esse tipo de ajuda não é admitir que você falhou em manter a calma. É uma das coisas mais respeitosas que uma pessoa pode fazer por si mesma.
Na próxima vez que aquele pequeno fogo se acender no seu peito, você não precisa agir a partir dele. Só precisa notá-lo, respirar uma vez, e encontrar a única coisa verdadeira no que ouviu. Essa é toda a habilidade, e ela já basta.
Fontes
- The Gottman Institute, The Four Horsemen: Defensiveness
- Greater Good Science Center, UC Berkeley, Four Ways to Cool Down Your Defensiveness
- Harvard Business Review (Sheila Heen e Douglas Stone), Find the Coaching in Criticism