Pense num momento em que tudo deu errado no trabalho. Um prazo que não fechou, um lançamento que quebrou, um cliente furioso, um número que ficou bem abaixo do esperado. Agora lembre da pessoa para quem todo mundo olhou instintivamente. É bem provável que não tenha sido a pessoa mais alto e bom som da sala, nem a de cargo mais alto. Foi aquela que ficou firme, que baixou o tom de voz em vez de levantar, que fez uma pergunta clara em vez de apontar culpados, que fez o resto da sala respirar mais fácil só por estar ali, calma.
Essa firmeza não é um traço de personalidade que você tem ou não tem de nascença. É uma habilidade, e ela pode ser aprendida. E, por sinal, é uma das habilidades de maior impacto em qualquer carreira, por uma razão simples sobre grupos de pessoas: emoção se contagia.
Calma é contagiosa, e pânico também
Os pesquisadores têm um nome para isso: contágio emocional. E as evidências são sólidas. A gente pega o humor dos outros do mesmo jeito que pega um bocejo, quase sem perceber. A pesquisadora da Wharton Sigal Barsade fez um estudo hoje clássico em que um único ator treinado entrava em pequenos grupos de trabalho e, discretamente, representava diferentes humores. O humor do ator se espalhava de forma consistente e mudava o clima de todo o grupo, e junto com ele, a qualidade da cooperação e do desempenho da equipe.
Duas descobertas desse conjunto de estudos importam especialmente para quem lidera. A primeira é que as pessoas prestam atenção desproporcional às emoções de quem elas veem como líder, o que significa que o seu estado emocional viaja mais longe e mais rápido do que você imagina. A segunda é mais séria: humores negativos costumam se espalhar mais facilmente do que os positivos. A ansiedade se propaga com mais facilidade do que a tranquilidade.
Juntando essas duas coisas, fica claro o que está em jogo. Quando você entra numa sala tensa carregando o seu próprio pânico, você não só o sente, você o entrega para todo mundo, e ele se multiplica. Quando você entra carregando firmeza, você dá às pessoas algo para se apoiar.
Por que a calma te deixa mais inteligente, não só mais agradável?
Existe uma segunda vantagem, e ela tem a ver com a qualidade das suas decisões.
Quando você é tomado pelo estresse, a parte do cérebro feita para respostas rápidas a ameaças assume o controle, e a parte feita para o pensamento cuidadoso fica em segundo plano. Psicólogos às vezes chamam a versão extrema disso de sequestro da amígdala, o momento em que o alarme se sobrepõe ao julgamento e você faz algo que nunca escolheria fazer de cabeça fria. Todo mundo já mandou aquele e-mail. Calma não é só um estado mais agradável de se viver. É o estado em que a sua inteligência de fato fica acessível para você.
Um líder que consegue se manter regulado sob pressão mantém acesso ao seu próprio melhor raciocínio exatamente quando isso é mais necessário, e, ao acalmar as pessoas à sua volta, mantém o raciocínio de toda a equipe funcionando também. É essa a vantagem do líder calmo, em uma frase: a serenidade protege o julgamento, o seu e o de todo mundo.
Isso não é sobre cargo
É fácil ler tudo isso como um conselho só para gestores. Mas não é. Liderança, no sentido que importa aqui, é um comportamento muito antes de ser um cargo. A pessoa que se mantém firme quando um projeto desanda está liderando, tenha ou não alguém subordinado a ela. As pessoas notam em quem podem confiar quando as coisas ficam difíceis, e é essa percepção que constrói confiança e influência, geralmente bem antes de o organograma acompanhar.
Se você já foi a pessoa firme num grupo de WhatsApp durante uma crise, ou o colega a quem os outros procuram discretamente quando estão em parafuso, você já sabe disso. Você estava liderando. O trabalho agora é fazer isso de propósito.
Como construir essa firmeza?
Calma sob pressão se constrói nos momentos comuns, não se invoca nos grandes. Algumas coisas que realmente ajudam:
- Conheça os seus próprios gatilhos. Preste atenção nas situações específicas que disparam a sua reação, uma pessoa em particular, ser interrompido, uma crítica em público, um certo tipo de erro. Você não consegue lidar com o que não vê chegando. Nomear os seus padrões é o primeiro passo para ficar um passo adiante deles.
- Compre um instante. Tudo costuma se decidir na distância entre sentir o impulso e agir sobre ele. Crie o hábito de respirar fundo uma vez, ou de dizer uma frase de espera, "deixa eu pensar um segundo", antes de responder. Quase nada no trabalho exige de fato uma reação instantânea.
- Regule o corpo primeiro. Não dá para pensar seu caminho até a calma enquanto o corpo está em estado de alarme. Uma expiração longa e lenta, os pés firmes no chão, os ombros relaxados, isso não são extras dispensáveis. É assim que você recupera o seu julgamento.
- Lidere a partir dos seus valores, não do seu humor. Decida com antecedência como você quer se posicionar, o tipo de colega e de líder que você quer ser, para que, no momento difícil, você tenha algo mais estável para agir a partir dali do que apenas o que você está sentindo naquela hora.
- Mostre recuperação, não perfeição. Você vai perder a compostura de vez em quando. Todo mundo perde. O que as pessoas lembram é se você assumiu isso e voltou. Um líder que diz "eu fui seco com você mais cedo, e a responsabilidade é minha" ensina a toda a equipe que erros são superáveis. Isso também se contagia.
O olhar de longo prazo
Aqui está a parte que faz esse esforço valer a pena além de qualquer trimestre. Os líderes que as pessoas seguem por décadas, aqueles cujas equipes fazem o melhor trabalho da vida delas e permanecem, quase nunca são os que ferveram mais alto. São os que foram uma presença segura e estável para se ter ao redor. Essa firmeza é boa para os resultados, e também é boa para você: uma carreira construída sobre autorregulação é muito mais sustentável do que uma construída na adrenalina até o esgotamento.
Calma não é a ausência de pressão. É o que você tem para oferecer às pessoas à sua volta justamente quando a pressão está no ponto mais alto. Construa isso agora, nos pequenos momentos, e ela vai estar ali quando realmente importar, para eles, e para você.
Fontes
- Sigal Barsade, The Ripple Effect: Emotional Contagion and Its Influence on Group Behavior (Administrative Science Quarterly)
- Wharton Executive Education, Emotional Contagion: Why It Matters for Leaders
- Knowledge at Wharton, Leadership Influence: Controlling Emotional Contagion