Dicas rápidas
- Escreva três candidatas, nunca só uma.
- Teste cada uma por duas semanas antes de escolher.
- Escolha a que se soma ao que você já faz.
Tem duas abas abertas. Uma é o curso de idiomas que você quer fazer há anos, a outra é uma oficina de marcenaria a dez minutos da sua casa, e as duas são reais. Você tem o dinheiro, achou umas cinco horas por semana e quer dedicar um pedaço sério da sua vida a fazer uma coisa muito bem feita.
A única coisa no caminho é que você não consegue escolher, e enquanto você não escolhe, essas cinco horas não vão para lugar nenhum. Esse é um bom problema e merece um procedimento, não uma moeda jogada para o alto. Escolher bem não é encontrar uma única vocação verdadeira. É escolher a aposta que mais se acumula com o tempo, fazer um teste curto e real antes de comprometer qualquer coisa que doeria perder, e então fechar a pergunta para a sua atenção parar de vazar para a aba que você não escolheu.
Como escolher uma habilidade só, se três me interessam?
Escreva três candidatas, teste cada uma por duas semanas nas horas que você realmente tem, e fique com a que você continuou abrindo sem precisar negociar consigo mesmo. Duas semanas é tempo suficiente para a novidade passar e curto o bastante para você não ter investido nada que doa perder.
Três é o número certo por um motivo. Com uma candidata só você não tem com o que comparar, então não dá para separar entusiasmo de encaixe, e você vai passar um ano pensando no caminho que não pegou. Com cinco ou seis, escolher vira o próprio hobby, que é como essa decisão acaba adiada por uma década.
Enquanto faz os testes, anote a coisa errada de propósito. Não anote o quanto gostou, porque na primeira semana tudo é gostoso. Anote se você abriu no dia em que estava sem energia, se pensou naquilo enquanto fazia outra coisa e quanto tempo levou para começar depois de sentar. Essas três coisas dizem muito mais sobre os próximos dois anos do que o quanto a primeira sessão foi boa.
O que faz uma habilidade valer dois anos, e não dois meses?
Três testes, e a habilidade que vale dois anos passa nos três: ela se soma a algo que você já faz, você consegue um retorno real em menos de um mês, e o núcleo dela vai sobreviver às ferramentas de hoje.
O acúmulo é o que as pessoas pulam. Uma habilidade que fica ao lado do seu trabalho atual rende o dobro de uma que fica sozinha, porque cada hora que você dedica a ela melhora uma hora da outra coisa e aparecem chances de usá-la sem precisar organizar nada. Se você escreve para viver, aprender a desenhar diagramas se acumula. Aprender violão não, e tudo bem, desde que você escolha sabendo disso.
O retorno é o segundo teste, e ele decide a velocidade com que horas viram habilidade. Se ninguém consegue te dizer em um mês se você está melhorando, você vai passar dois anos praticando um erro com disciplina perfeita. Procure um terreno com placar: uma gravação que dá para ouvir depois, um encaixe de madeira que fecha ou não fecha, uma pessoa que leia a página e diga onde ficou entediada.
O terceiro teste é a durabilidade, e ele tem um número. David Deming e Kadeem Noray, trabalhando com dados de trajetórias profissionais nos Estados Unidos, descobriram que o retorno econômico inicialmente alto dos diplomas técnicos aplicados cai mais da metade na primeira década de vida profissional, porque o conteúdo técnico específico não para de mudar debaixo dos pés de quem aprendeu. Isso não é um argumento contra aprender ferramentas. É um argumento a favor de escolher uma habilidade cujo núcleo fica embaixo das ferramentas.
Como testar uma habilidade em duas semanas sem perder tempo?
Escolha um resultado real e estreito e entregue dentro dessas duas semanas. Não um curso e não um capítulo de teoria: uma coisinha que exista no fim e que outra pessoa possa olhar.
Dois minutos tocando, gravados. Um banquinho de madeira. Dez minutos de conversa com alguém que fale a língua e te corrija. Uma página escrita sobre algo que você realmente conhece. O resultado importa porque tira você da parte de toda habilidade nova que parece leitura, e é a parte da leitura que engana as pessoas e faz elas acharem que já escolheram bem.
Mantenha um registro de três linhas toda noite: minutos, o que fez e se precisou se convencer a começar. No fim das duas semanas quem decide é o registro, não o seu entusiasmo na última noite. E faça os testes um de cada vez, não em paralelo, porque comparar lado a lado premia aquele para o qual você por acaso tinha mais energia naquela semana.
Importa se eu tenho talento natural para isso?
Menos do que importa o terreno. Uma meta-análise de Brooke Macnamara, David Hambrick e Frederick Oswald descobriu que a prática deliberada explicava cerca de 26 por cento das diferenças de desempenho em jogos, 21 por cento em música e 18 por cento em esportes, e muito menos em educação e no trabalho profissional.
Leia isso como um fato sobre terrenos, não como um veredito sobre você. Onde a tarefa é estável e o retorno é imediato, horas viram habilidade num ritmo alto, e esses são exatamente os lugares onde quem começa do zero consegue avançar rápido. Onde o retorno é lento e o ambiente não para de mudar, as horas continuam contando, mas precisam de melhor desenho e de mais olhos de fora para render. Então não escolha por talento, escolha por velocidade de retorno.
E se eu escolher errado?
Você perde alguns meses, não os dois anos, e bem menos do que isso quando conta o que se transfere. Quase tudo que você constrói nos primeiros meses de qualquer habilidade séria é geral: como conduzir uma sessão de prática, como aguentar fazer feio na frente de alguém competente, como partir uma coisa grande numa coisa pequena que dá para fazer numa terça-feira.
O erro caro não é escolher errado. É reescolher a cada onze semanas. Angela Duckworth e colegas estudaram o que previa as pessoas terminarem coisas realmente difíceis, entre cadetes de West Point, universitários e competidores do concurso nacional de soletração, e o que previa isso era o grit, aquela determinação que eles definiram como perseverança e paixão por metas de longo prazo e que não acompanhava o QI. Leia isso ao lado da sua própria decisão e a parte útil é o que o estudo não diz. Ninguém naquela pesquisa se destacou por ter escolhido de forma impecável.
O que quer dizer que uma escolha meramente boa, mantida, ganha de uma escolha perfeita que você reabre toda hora. Marque uma data de revisão em vez de uma porta de saída. Dois anos depois do começo, olhe com honestidade e decida de novo. Daqui até lá a pergunta está fechada, e fechar essa pergunta é quase tudo que você está comprando com esse procedimento inteiro.
Assuma em voz alta e pare de procurar
Quando os testes acabarem, faça a decisão ficar cara de desfazer pelo meio mais barato que você tiver. Diga em voz alta para uma pessoa que vai te perguntar sobre isso depois. Escreva a habilidade em algo que você vê todo dia. Coloque as horas no calendário com o nome real da habilidade, não como um bloco vago, e feche as outras abas.
Isso não é uma vida menor. Escolher uma habilidade é como você concentra força, e em dez anos a diferença entre fazer uma coisa muito bem e ter uma relação simpática com três não é uma diferença pequena: é outra vida. As duas candidatas que você não escolheu não sumiram. Elas estão na fila, e você vai chegar nelas com um hábito de prática já construído, que é um jeito de chegar melhor do que o que você conseguiria este ano de qualquer forma.
Então escolha aquela que você continuou abrindo, dê a ela as horas que já encontrou, e deixe ficar difícil. A dúvida nunca foi o problema. O problema era nada estar alocado.
Fontes
- Psychological Science, Deliberate practice and performance in music, games, sports, education, and professions: a meta-analysis
- Journal of Personality and Social Psychology, Grit: perseverance and passion for long-term goals
- National Bureau of Economic Research, STEM Careers and the Changing Skill Requirements of Work