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MENTE & HUMOR · ATENÇÃO PLENA

Atenção plena nas tarefas do dia a dia: praticar sem acrescentar mais uma coisa ao seu dia

Mindfulness nas tarefas do dia a dia significa trazer sua atenção de volta para aquilo que já está bem na sua frente. Você não precisa de almofada, de aplicativo, nem daqueles vinte minutos de silêncio que você não tem. A louça, o caminho até o carro, o café que já está na sua mão, isso já basta. Veja como transformar as tarefas que você já faz no próprio exercício de atenção plena.

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Uma mulher de top esportivo preto sentada numa pose de ioga

Foto de volant no Unsplash

Você já lavou a louça mil vezes e não conseguiria me contar um único detalhe sobre isso. A água estava morna ou não estava. O prato passou pela sua mão e foi parar no escorredor. Enquanto isso, sua mente estava três cômodos à frente, ensaiando uma conversa ou organizando as preocupações de amanhã. Suas mãos fizeram a tarefa inteira e você não esteve ali para vivê-la.

Boa parte do nosso dia funciona assim. A gente atravessa as coisas pequenas no piloto automático para que a mente possa continuar ocupada com as coisas grandes. Parece eficiente. Muitas vezes, só significa que passamos horas fisicamente presentes e mentalmente em algum lugar pior.

A atenção plena nas tarefas do dia a dia é a correção silenciosa para isso. Em vez de reservar um momento especial para ficar calmo, você traz sua atenção de volta para aquilo que já está bem na sua frente. A tarefa deixa de ser tempo morto. Ela vira alguns segundos de estar, de verdade, onde você está.

Você já está fazendo as tarefas. Esse é o pulo do gato.

Quando as pessoas ouvem "atenção plena", geralmente imaginam alguém sentado, parado, de olhos fechados. Essa é uma versão, e é uma boa versão. Os pesquisadores chamam isso de prática formal. Mas existe um segundo tipo, chamado de prática informal, e é o que cabe numa vida real. A prática informal significa trazer uma atenção firme e curiosa para o que você já está fazendo. Escovar os dentes. Dobrar roupa. Esperar a água ferver. Caminhar do estacionamento até a porta.

O apelo é óbvio. Você não precisa arrumar tempo, porque o tempo já está reservado. Você vai lavar aquela caneca de qualquer jeito. A única pergunta é se você vai estar presente para isso.

E essa não é a versão menor, mais fraca. Um estudo que analisou como as pessoas praticam de verdade descobriu que a frequência da atenção plena informal, do dia a dia, estava mais ligada ao bem-estar e à flexibilidade psicológica do que a frequência ou a duração da meditação formal, sentada. Os momentos comuns talvez carreguem mais peso do que a gente costuma dar crédito.

O que muda quando você presta atenção?

Aqui está o mecanismo, em termos simples. A mente tem uma configuração padrão, e esse padrão é vagar. Deixada sozinha, ela tende a reviver o passado e pré-viver o futuro, e boa parte para onde ela vagueia é estressante. Trazer a atenção para uma tarefa simples do momento presente interrompe essa deriva. Você não consegue esfregar bem uma panela e ao mesmo tempo se perder pensando num prazo. A tarefa dá à mente uma única coisa clara para segurar.

Essa habilidade de perceber que a atenção fugiu e trazê-la de volta é treinável, como um músculo. Em um estudo controlado e randomizado, pessoas que aprenderam a observar o momento presente mostraram melhoras reais no controle da atenção. Essa melhora apareceu não só num teste de laboratório, mas no meio do dia a dia real, registrada por check-ins no celular. Você não está apenas se acalmando naquele momento. Está, aos poucos, ficando melhor em direcionar o próprio foco.

O National Institutes of Health (NIH) descreve a atenção plena como aprender a focar no presente e perceber o que está acontecendo dentro e ao redor de você sem se apressar em julgar. As pesquisas que eles citam ligam esse foco no presente a menos ansiedade, sono melhor e pressão arterial mais estável. Nada disso exige um retiro. Pode começar com uma única xícara de café vivida com atenção.

Como fazer isso, na prática?

Escolha uma coisa que você faz todo dia no piloto automático. Uma só. Não tente tornar sua vida inteira consciente até sexta-feira, isso é receita para desistir. A louça é clássica por um motivo, então vamos usá-la, mas o formato funciona para qualquer coisa.

  1. Mergulhe nos seus sentidos. Sinta a temperatura da água. O peso do prato, o escorregadio do sabão, o som específico que a esponja faz. Você não está pensando na louça. Você está sentindo a louça.
  2. Deixe a tarefa ser a única tarefa. Quando perceber que sua mente foi embora, para a caixa de e-mails, por exemplo, e ela vai, essa percepção é a prática funcionando, não falhando. Traga a atenção de volta para suas mãos, com gentileza. Você vai fazer isso umas cinquenta vezes. Tudo bem. Essa é a repetição.
  3. Solte o comentário mental. Você não precisa rotular como relaxante nem decidir se é "bom nisso". Deixe a água morna ser só água morna.
  4. Deixe terminar quando terminar. Uma pia de louça. Isso já é uma prática completa. Você não deve nada além disso.

Só isso. Sem postura especial, sem aplicativo, nada que alguém ao seu redor sequer perceberia.

Algumas tarefas que combinam bem com isso

Alguns momentos comuns parecem feitos sob medida para isso. Alguns que costumam funcionar:

  • O primeiro gole de café ou chá, antes de pegar o celular. Só o calor e o cheiro, por trinta segundos.
  • O caminho de ida e volta até o carro. Sinta seus pés tocando o chão. Perceba o ar, quente ou frio, parado ou em movimento.
  • Um banho. A água já é uma experiência sensorial para o corpo todo. Você só precisa parar de planejar o dia embaixo dela.
  • Comer uma mordida devagar. Sentir de verdade o gosto da primeira mordida de uma refeição, em vez de engolir tudo enquanto rola o feed.
  • Fazer carinho num cachorro ou gato. A textura, o calor, o barulhinho deles. Eles já estão totalmente presentes. Peça emprestado esse presente.

Você não precisa de todas essas. Escolha a que parecer menos chata e comece por ela.

E se a sua mente não colaborar?

Em alguns dias você vai tentar isso e seus pensamentos vão ser um furacão, e a louça não vai ajudar em nada. Isso é normal, e não é sinal de que você está fazendo errado. Atenção plena não é sobre esvaziar a mente ou se forçar a sentir paz. É sobre perceber para onde sua atenção foi e convidá-la de volta, de novo e de novo, sem se repreender por ter se distraído. O trazer de volta é o exercício. Uma mente cheia só significa que você tem mais repetições para fazer.

Vá com calma também com as metas. Se você transformar "praticar atenção plena lavando a louça" em mais uma performance para acertar, você recriou exatamente a pressão que estava tentando largar. Não existe nota. Uma única respiração atenta em frente à pia já conta.

O motivo maior por trás disso tudo

Junte bastante desses momentos e algo muda. Você começa a perceber seu próprio piloto automático mais cedo, em conversas, no trânsito, na espiral de uma tarde ruim. A distância entre sentir algo e reagir a isso aumenta um pouco, e é nesse espaço maior que moram as escolhas melhores. É um pequeno hábito diário com um retorno enorme, o que é raro.

Um limite importante e honesto. A atenção plena no dia a dia é um apoio de verdade, e também não é um tratamento. Se você está lidando com ansiedade persistente, depressão, o peso de um trauma, ou períodos em que tudo parece grande demais, lavar a louça com atenção plena não é a resposta sozinha, e não deveria precisar ser. Converse com um médico ou terapeuta. Algumas pessoas também percebem que voltar a atenção para dentro desperta mais angústia em vez de menos, especialmente depois de um trauma. Se esse é o seu caso, você não está falhando na prática. Só significa que essa ferramenta em especial precisa ser introduzida com ajuda de alguém que conheça a sua história. Buscar mais apoio é a atitude mais forte, não um plano reserva.

A louça vai estar lá amanhã. E a chance de estar realmente presente para ela, também.

Fontes

  1. National Institutes of Health, Mindfulness for Your Health (NIH News in Health)
  2. Mayo Clinic, Mindfulness exercises
  3. National Center for Biotechnology Information, An Exploration of Formal and Informal Mindfulness Practice and Associations with Wellbeing
  4. National Center for Biotechnology Information, Mindfulness interventions improve momentary and trait measures of attentional control: Evidence from a randomized controlled trial

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