Existe um teste silencioso que acontece em todo time, e quase ninguém fala dele em voz alta. Alguém anuncia um valor. A gente respeita o tempo um do outro. A gente fala a verdade mesmo quando dói. A gente não deixa ninguém se esgotar. E aí todo mundo espera para ver o que realmente acontece. Observam se a reunião começa no horário. Observam o que é recompensado e o que é tolerado em silêncio. Observam a pessoa que disse aquelas palavras, para ver se elas eram de verdade.
Esse observar é o motor inteiro de liderar pelo exemplo. Ele funciona quer você queira ou não.
Você não precisa de nenhum cargo para que isso se aplique a você. Se você já foi a pessoa nova escaneando a sala para entender como as coisas funcionam ali, você já sabe como isso opera do outro lado. A gente descobre as regras não escritas de um lugar observando quem parece pertencer a ele. O colega que responde com gentileza a um e-mail exaltado ensina a todos que estão vendo que é assim que se lida com frustração. Quem corta caminho e sai impune também ensina alguma coisa.
O que as pessoas estão realmente lendo?
O espaço que mais importa para as pessoas é o que existe entre o que você diz e o que você faz. Um pesquisador de Cornell chamado Tony Simons deu um nome a isso: integridade comportamental, a percepção de alinhamento entre as palavras e as atitudes de uma pessoa. O trabalho dele descobriu que, quando os funcionários percebem um padrão em que as palavras batem com as ações, a confiança no líder aumenta, e o comprometimento também. Quando percebem as palavras e as ações se afastando uma da outra, as palavras perdem a força. Depois de descompassos suficientes, as pessoas param de ouvir o que você diz e passam a tratar isso como ruído.
Vale a pena parar para pensar nisso, porque isso vira do avesso uma suposição comum. Muita gente acha que liderar pelo exemplo é, basicamente, fazer coisas impressionantes na esperança de que os outros copiem. A pesquisa aponta para algo mais simples. É sobre consistência. As pessoas não estão avaliando você contra a perfeição. Estão avaliando você contra o próprio padrão que você mesmo estabeleceu. O gestor que prega equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e depois manda e-mails à meia-noite não é visto como alguém dedicado. É visto como alguém cuja palavra não vale nada.
Por que observar é como aprendemos?
Existe um motivo para o exemplo alcançar tão longe. Grande parte do comportamento humano é aprendido por observação, não por instrução. A gente vê alguém fazer algo, vê como isso repercute, e guarda aquilo como uma possibilidade para si mesmo. Isso vale para uma criança aprendendo a dar tchau e vale para alguém de trinta anos aprendendo se é seguro discordar numa reunião.
Então, quando você age na frente de outras pessoas, você nunca está lidando só com a tarefa que tem à sua frente. Você também está mostrando a todos que estão observando o que é permitido ali. Está mostrando como esse grupo trata um erro, como trata uma pessoa mais nova, como lida com um prazo que está escapando. A maior parte desse ensinamento é silenciosa. Provavelmente você nem percebe que está fazendo isso. Mas eles estão aprendendo mesmo assim.
É por isso que "faça o que eu digo, não o que eu faço" nunca funciona. O fazer fala mais alto. O fazer é a lição de verdade, e tudo o que você diz por cima disso é só uma nota de rodapé.
O exemplo mais difícil de dar é o honesto
É aqui que liderar pelo exemplo fica desconfortável, e também onde ganha força.
A pesquisadora de Harvard Amy Edmondson estuda o que ela chama de segurança psicológica, a sensação compartilhada de que é seguro falar, fazer uma pergunta ou admitir um erro sem ser punido por isso. Um time que tem isso identifica os problemas cedo. Um time que não tem isso enterra os problemas até eles explodirem. E ela é clara sobre onde isso começa: com a pessoa mais experiente da sala reconhecendo primeiro a própria falibilidade.
Não é sobre encenar fraqueza. É apenas ser honesto e humano. Dizer "pode ser que eu esteja deixando passar alguma coisa aqui, preciso ouvir vocês". Dizer "eu errei nisso, e a responsabilidade é minha". Quando Edmondson fala sobre isso em contextos de alto risco, como hospitais, o ponto é claro. Se a pessoa com mais autoridade nunca admite incerteza, ninguém abaixo dela vai ousar fazer isso. O exemplo de honestidade precisa vir de quem está no topo de qualquer sala, mesmo que essa sala seja só você e uma pessoa nova e insegura.
Essa é a parte que as pessoas costumam pular. É fácil modelar os comportamentos mais polidos: chegar preparado, manter a calma, trabalhar duro. É muito mais difícil modelar os comportamentos vulneráveis. Mas são esses exemplos que realmente libertam as outras pessoas. Quando você diz em voz alta que não sabe algo, você dá a todos permissão para parar de fingir. Quando você assume um erro sem rodeios, você ensina a um time inteiro que erros ali são superáveis. Essa lição vale mais do que qualquer discurso motivacional.
Como liderar pelo exemplo de propósito?
Você já está dando um exemplo. A única questão é se você está fazendo isso de forma deliberada. Algumas coisas ajudam:
- Escolha alguns padrões e realmente os mantenha. Você não consegue modelar tudo, e tentar fazer isso vai te deixar frágil. Escolha as duas ou três coisas que mais importam para você, honestidade, tratar as pessoas com decência, não deixar o trabalho engolir sua vida inteira, e proteja isso com firmeza. Consistência em poucas áreas vale mais do que boas intenções em todas.
- Preste atenção nos momentos pequenos e sem brilho. O exemplo de ninguém é testado nos discursos. É testado em como você fala de um colega que não está na sala, se você admite um erro quando poderia escondê-lo discretamente, como você trata alguém que não pode fazer nada por você. Esses são os momentos que as pessoas guardam na memória.
- Feche as próprias distâncias entre o que você diz e o que você faz antes de se preocupar com as dos outros. Se você vive pedindo para as pessoas tirarem pausas de verdade, tire uma. Se você pede sinceridade, reaja bem na primeira vez que alguém te der uma sinceridade difícil de ouvir. Uma promessa cumprida ensina mais do que dez valores declarados.
- Deixe as pessoas verem o reparo, não só o deslize. Você vai, às vezes, ficar aquém do seu próprio padrão. Isso acontece com todo mundo. O que as pessoas aprendem é o que você faz depois. Nomear a falha claramente, "eu disse que ia proteger as sextas-feiras e aí marquei algo em cima da sua, isso foi errado", transforma uma falha numa lição sobre responsabilidade.
- Pare de tentar ser um exemplo impecável. Um exemplo impecável é uma porta fechada. Ele diz às pessoas que o padrão é a perfeição, o que só ensina a esconder. Um exemplo humano, alguém que tenta, erra, assume e continua, é um exemplo que as outras pessoas conseguem realmente seguir.
Uma verificação gentil da realidade
Liderar pelo exemplo é um trabalho constante, do dia a dia, e ele pode ir te desgastando aos poucos, especialmente se você sente que está segurando um padrão que ninguém mais ao seu redor compartilha. Se você se percebe exausto por ser sempre a pessoa responsável, ressentido, ou carregando um peso que já começou a afetar seu sono ou seu humor, isso merece atenção. Dar um bom exemplo não é a mesma coisa que absorver a carga de todo mundo até não sobrar nada de você.
Se é aí que você está, conversar sobre isso com alguém, uma pessoa de confiança, um mentor, ou um terapeuta, não é um desvio da liderança. Cuidar dos seus próprios limites também faz parte do exemplo. As pessoas que observam aprendem com o jeito que você trata a si mesmo, assim como aprendem com tudo o mais.
A parte animadora é que nada disso exige autoridade ou um palco. Isso acontece nas menores escolhas, feitas repetidas vezes, enquanto as pessoas tomam nota em silêncio. Você está ensinando, queira ou não. Bem que você poderia ensinar algo bom.
Fontes
- INFORMS, Organization Science, Behavioral Integrity: The Perceived Alignment Between Managers' Words and Deeds as a Research Focus (Tony Simons)
- AAMC, Amy Edmondson: Psychological safety is critically important in medicine
- Harvard Business Review, How to Build a Company That (Actually) Values Integrity
- Harvard Business Review, What Authentic Leadership Looks Like Under Pressure