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LIDERAR SEM UM CARGO · PARES

Liderar os seus pares: como tomar a frente sem puxar patente

Liderar quem já foi seu colega funciona quando você dá antes de pedir; uma autoridade emprestada se percebe do outro lado da sala. Ser chamado para liderar as pessoas com quem você sentava ao lado é uma das situações mais desconfortáveis de qualquer carreira. Você não pode dar ordens, e nem ia querer. Veja aqui como conquistar o tipo de cooperação que não vem junto com um cargo.

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Grupo de pessoas numa reunião.

Foto de Mario Gogh no Unsplash

Na semana passada você era só mais um do time. Nesta semana você está à frente do projeto, e as mesmas pessoas continuam sentadas ao seu lado. Ninguém responde a você. Ninguém é obrigado a fazer o que você diz. E, ainda assim, o trabalho precisa sair do papel, no prazo, com todo mundo puxando mais ou menos na mesma direção.

Esse é o tipo de liderança mais estranho que existe, e também o mais comum. A maior parte da liderança que qualquer um de nós exerce acontece de lado, não de cima para baixo. Você está coordenando um lançamento entre três departamentos. É o ponto de contato que ninguém oficializou. É quem percebe que o trabalho está saindo dos trilhos e fala sobre isso. Nada disso vem acompanhado do poder de obrigar alguém a fazer o que quer que seja.

O instinto, quando você não tem autoridade nenhuma, é tentar parecer que tem. Falar um pouco mais alto, mandar aquele e-mail meio mandão, deixar escapar quem foi que pediu para você tocar isso. Isso quase sempre sai pela culatra com colegas, porque eles sentem de longe quando o crachá é emprestado. Existe um jeito melhor, e a pesquisa sobre isso é surpreendentemente consolidada.

Por que o cargo nunca foi o ponto?

Aqui vai algo que vale a pena parar para pensar: mesmo quem tem autoridade formal raramente lidera se apoiando nela. Um gestor que precisa repetir "porque eu sou o chefe" já perdeu a sala. Influência de verdade é algo que as outras pessoas concedem a você. A Harvard Business Review já colocou isso de forma direta: líderes são eficazes quando os outros os reconhecem como tais, levando suas ideias a sério, seguindo suas sugestões e vindo pedir seu conselho. Note que todo verbo dessa frase pertence à outra pessoa. Ela escuta. Ela segue. Ela procura você. Você não toma nada disso. Você conquista.

O que significa que não ter um cargo não é o obstáculo que parece ser. Ele só tira o caminho mais fácil e deixa você com o que realmente funciona: confiança, credibilidade e um histórico de ser útil para quem está à sua volta.

O motor silencioso: dar antes de pedir

O modelo mais duradouro para liderar colegas vem de dois pesquisadores de escolas de administração, Allan Cohen e David Bradford, que estudaram como as pessoas fazem as coisas acontecerem dentro de uma organização quando não podem dar ordens a ninguém. A resposta deles foi reciprocidade. Todo mundo mantém uma espécie de conta corrente informal, quase inconsciente, de quem já ajudou e quem não ajudou. Quando você ajuda um colega, você acumula um tipo de crédito, e a maioria das pessoas sente uma vontade real de retribuir.

A percepção mais afiada deles foi sobre o que realmente conta como ajuda. Cohen e Bradford falam em "moedas", as diferentes coisas que as pessoas realmente valorizam no trabalho. Para um colega, é ser reconhecido na frente do chefe. Para outro, é informação, ou uma carga de trabalho mais tranquila, ou ser incluído nas decisões interessantes, ou simplesmente se sentir respeitado como especialista. O erro é presumir que todo mundo quer o que você mesmo gostaria de receber. A habilidade está em observar tempo suficiente para descobrir do que cada pessoa realmente carece, e então ser você quem oferece isso.

Nada disso é manipulação, desde que seja genuíno. Você não está comprando as pessoas. Está percebendo o que elas precisam e ajudando dentro do possível, do jeito que você gostaria que um bom colega fizesse por você. A parte da liderança está em fazer isso de propósito, e fazer primeiro.

Cinco atitudes que realmente funcionam

Quando você está liderando de lado, são as pequenas coisas que carregam a maior parte do peso. Algumas que ajudam de forma consistente:

  1. Peça, não determine. "Você poderia cuidar da parte de dados, já que é quem mais entende disso?" chega de um jeito completamente diferente de "preciso que você cuide da parte de dados". A primeira trata seu colega como o adulto capaz que ele é. A segunda o trata como um subordinado que ele não é.
  2. Coloque o objetivo no comando, não você. As pessoas vão seguir um propósito claro e compartilhado muito antes de seguirem as preferências de um colega. Continue apontando para aquilo que todos estão tentando alcançar, para que seja o projeto puxando o time, e não você tendo que empurrar.
  3. Lidere com perguntas. Quando você não é a pessoa mais experiente na sala, sua melhor ferramenta é uma boa pergunta. Ela mostra que você está lá para resolver junto, não para fingir certeza. E costuma gerar respostas melhores do que seu primeiro palpite.
  4. Reconheça o mérito dos outros, em voz alta e com frequência. Colegas observam de perto se você vai monopolizar os créditos. Seja a pessoa que diz exatamente quem fez o quê, principalmente quando a liderança está ouvindo. Generosidade ao reconhecer méritos é uma das moedas mais baratas e poderosas que você tem.
  5. Seja impecável com a sua própria parte. Nada conquista autoridade lateral mais rápido do que fazer bem e no prazo a sua parte. Você não pode exigir de outros um padrão que você mesmo não cumpre, e, entre colegas, esse padrão só é reforçado pelo exemplo.

Deixe seguro para ser sincero com você

Liderar bem colegas não é só conseguir que eles ajam. É conseguir que eles digam a verdade, inclusive as partes que você não vai querer ouvir. Um projeto desanda em silêncio quando as pessoas veem o iceberg e decidem que não é o lugar delas mencionar isso.

A pesquisadora de Harvard Amy Edmondson passou anos estudando isso e deu um nome ao fenômeno: segurança psicológica. É a sensação compartilhada de que você pode falar sobre uma preocupação, uma dúvida ou um erro sem ser punido ou fazer feio. O trabalho inicial dela trouxe algo que a surpreendeu. Os times mais fortes relatavam mais erros, não menos. Eles não eram mais desorganizados. Só se sentiam seguros o suficiente para falar sobre o que deu errado, que é a única forma de um time realmente corrigir alguma coisa.

Para quem lidera sem cargo, isso é um presente, porque construir segurança não exige autoridade nenhuma. Você constrói isso na forma como reage. Quando um colega aponta um problema, agradeça antes de fazer qualquer outra coisa. Quando você está errado, diga isso primeiro e sem rodeios. Quando a ideia de alguém não funciona, separe a ideia da pessoa. Faça isso algumas vezes e as pessoas aprendem, sem que você precise dizer uma palavra, que é seguro ser sincero com você. Essa reputação vai fazer mais pela sua influência do que qualquer cargo jamais faria.

Quando a liderança de lado deixa de ser algo para você resolver?

Existe um limite real aqui, e vale a pena nomeá-lo, porque fingir que ele não existe vai só te desgastar.

Às vezes um colega simplesmente não coopera, não importa quanta generosidade ou clareza você ofereça. Às vezes duas pessoas do time estão em conflito aberto, ou o comportamento de alguém está passando dos limites, ou o trabalho continua falhando porque os papéis nunca foram de fato definidos por quem tinha autoridade para definir. Esses não são problemas que se resolvem com perguntas melhores e mais boa vontade. Tentar carregar tudo isso sozinho, com autoridade emprestada, é como boas pessoas acabam exaustas e ressentidas.

Esse é o momento de chamar quem realmente tem a autoridade formal. Seu gestor, o responsável pelo projeto, o RH, se for uma questão de conduta. Fazer isso não é um fracasso da sua liderança. Saber até onde você consegue resolver, e passar o resto para a pessoa certa, é liderança. Deram a você influência, não um cargo que nunca foi seu.

E se esse tipo de papel intermediário está te desgastando de forma mais ampla, a responsabilidade sem a autoridade, o esforço de manter um time unido só com base em relações, isso também merece ser levado a sério. Converse com seu gestor sobre o que você realmente precisa para conseguir dar conta. Se esse peso está te seguindo até em casa e afetando seu sono ou seu humor, um médico ou terapeuta pode ajudar você a carregar isso. Liderar pessoas é trabalho de verdade, mesmo quando nenhum cargo confirma isso. Você tem todo o direito de precisar de apoio para isso.

Na maior parte do tempo, porém, funciona. Você ajuda primeiro. Você pede em vez de mandar. Você cria um espaço seguro para a sinceridade, e mantém a sua própria parte impecável. Faça isso por tempo suficiente e um dia você vai perceber que o time está seguindo você, não porque alguém mandou, mas porque decidiram fazer isso. É esse tipo de liderança que dura.

Fontes

  1. Harvard Business Review, How to Lead When You're Not the Boss
  2. Harvard Business Review, Exerting Influence Without Authority
  3. Stanford Graduate School of Business, Influence Without Authority (Allan R. Cohen and David L. Bradford)
  4. Harvard Business School, Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams (Amy C. Edmondson)

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