Você sentiu a pontada e decidiu, num piscar de olhos, que aquele não era o momento. Talvez alguém tenha dito algo que machucou. Talvez uma onda de luto tenha te pego de surpresa no supermercado. Então você fez o que a maioria de nós aprendeu a fazer. Engoliu tudo. Manteve o rosto neutro. Disse a si mesmo que resolveria depois, e o depois nunca chegou de verdade.
Não há nada de errado nesse instinto. Às vezes, segurar um sentimento por uma hora é exatamente a atitude certa. O problema é quando engolir o sentimento vira a única saída que você conhece, o reflexo automático de sempre, porque as pesquisas sobre o que acontece depois são surpreendentemente consistentes. Empurrar um sentimento para baixo não o torna menor. Geralmente o torna mais alto, e manda a conta para um lugar que você não estava olhando.
A coisa em que você não está pensando
Existe um experimento famoso que explica boa parte disso numa única imagem. Pediram para que as pessoas se sentassem numa sala e, aconteça o que acontecer, não pensassem num urso branco. Dá para imaginar como foi. O urso branco aparecia várias vezes. E aqui está a parte que importa: quando essas mesmas pessoas depois foram avisadas de que podiam pensar no urso livremente, ele voltou com ainda mais força do que para as pessoas que nunca tinham recebido a instrução de reprimir o pensamento.
O psicólogo Daniel Wegner chamou isso de efeito rebote, e a explicação é quase engraçada quando você entende. Para manter um pensamento afastado, uma parte da sua mente precisa ficar checando se o pensamento ainda está longe. Essa checagem, silenciosamente, mantém o pensamento vivo. Você vira o vigia noturno da própria coisa que queria esquecer.
Os sentimentos funcionam de um jeito parecido. Quando você reprime uma emoção, uma parte de você fica de guarda contra ela, o que a mantém por perto. O sentimento não é processado. Ele fica estacionado, com o motor ligado.
A repressão esconde o sentimento, não o custo
Ajuda separar duas coisas que costumam se misturar. Uma é o que você sente por dentro. A outra é o que você mostra por fora. Os psicólogos chamam de "supressão expressiva" a estratégia de manter o rosto calmo enquanto a tempestade continua lá dentro. Você está controlando a aparência, não a emoção.
E aí está a pegadinha. Estudos que colocam pessoas sob estresse e pedem que disfarcem suas reações mostram que o corpo não recebe esse recado. Os sinais externos ficam quietos enquanto o interior continua ligado, às vezes até mais ligado do que antes. Seu rosto diz que está tudo bem. Sua frequência cardíaca, sua química do estresse, seus ombros tensos dizem outra coisa.
Faça isso com frequência e a conta cresce. Pessoas que usam a repressão como principal forma de lidar com as emoções costumam relatar mais ansiedade e mais desânimo com o tempo, e também menos dos sentimentos bons. A repressão é uma estratégia furada. Ela amortece um pouco os sentimentos difíceis e amortece muito os sentimentos bons, por isso quem segura tudo com unhas e dentes costuma descrever uma sensação estranhamente vazia, não de paz.
Por que só "engolir e seguir" te desgasta?
Pense no que realmente é preciso para manter a tampa fechada. Atenção. Esforço. Um zumbido constante de automonitoramento no fundo da mente. É energia que você gasta para esconder algo, em vez de gastar na conversa, na tarefa ou na pessoa que está na sua frente.
É por isso, em parte, que engolir sentimentos costuma aparecer no corpo antes de aparecer como uma emoção com nome. A dor de cabeça de tensão. A mandíbula travada na hora do almoço. O sono que não descansa direito. Aquele aperto vago no peito. Nada disso prova alguma coisa sozinho, mas é um padrão conhecido: o sentimento que você se recusou a encarar encontra uma porta dos fundos.
Nada disso quer dizer que você deve soltar cada emoção assim que ela chega. O objetivo não é ter menos controle. É um tipo diferente de controle, aquele que deixa o sentimento existir tempo suficiente para te dizer alguma coisa, em vez de lutar contra ele o tempo todo.
O que fazer no lugar disso?
A alternativa a engolir tudo não é despejar tudo de uma vez. É dar ao sentimento um pouco de espaço e um pouco de processamento. Algumas abordagens que funcionam bem:
- Nomeie, em silêncio. Coloque em palavras o que você está sentindo, mesmo que só na sua cabeça. "Isso é raiva." "Aquilo doeu." "Estou com medo de quinta-feira." Nomear um sentimento costuma tirar um pouco do ar dele. Você não está discutindo com ele. Está reconhecendo que ele existe, o que é o oposto da repressão.
- Mude a lente, não o rosto. Em vez de esconder a reação, olhe de novo para o que a provocou. Existe outra leitura para o que acabou de acontecer? Seu colega de trabalho foi ríspido por sua causa, ou porque a manhã dele desandou? Essa mudança, às vezes chamada de reavaliação, costuma fazer o que a repressão só finge fazer: de fato reduz a intensidade do sentimento, e não achata seus sentimentos bons como efeito colateral.
- Coloque no papel. Existem pesquisas sólidas, boa parte delas do psicólogo James Pennebaker, mostrando que passar quinze ou vinte minutos escrevendo com sinceridade sobre uma experiência difícil pode ajudar. Não é um diário bem escrito, é só colocar no papel seus pensamentos e sentimentos de verdade. Pessoas que fazem isso apresentaram melhoras mensuráveis, incluindo menos idas ao médico nos meses seguintes. O truque é realmente explorar o assunto, não repetir a mesma reclamação em loop, já que remoer a mesma história do mesmo jeito é só ruminação com caneta.
- Deixe o sentimento atravessar o corpo. Um sentimento é algo físico. Às vezes, o jeito mais rápido de aliviar a tensão é uma expiração lenta, uma caminhada curta ou balançar as mãos, em vez de mais uma rodada de pensamentos sobre o assunto.
- Escolha o momento, de propósito. "Agora não" é uma escolha perfeitamente válida no meio de uma reunião. A diferença entre saudável e prejudicial é se o "agora não" vem acompanhado de um "depois". Estacione o sentimento, e depois volte a ele quando tiver um tempinho e alguma privacidade.
Você não precisa das cinco. A maioria das pessoas encontra uma ou duas que combinam com ela e passa a usar essas.
Uma ressalva justa
A repressão não é uma vilã. Se recompor rapidamente para atravessar um funeral, uma apresentação ou uma troca tensa com alguém difícil é uma habilidade normal e útil. Escolher quando e onde sentir alguma coisa faz parte de ser um adulto que dá conta da vida. O problema é transformar isso na sua única ferramenta, manter a tampa fechada por semanas ou anos até perder de vista o que está guardado ali dentro.
Se você leu tudo isso e se reconheceu, vá com calma consigo mesmo. A maioria de nós aprendeu a engolir sentimentos por bons motivos, muitas vezes porque, em algum momento, mostrar sentimentos grandes não era seguro. Desaprender isso é lento, e não acontece à força.
Quando buscar mais apoio?
Às vezes, um sentimento é grande demais para lidar sozinho, e isso não é falta de força de vontade. Se você está se sentindo sem reação ou desanimado há semanas, se parece não conseguir acessar suas emoções de jeito nenhum, se experiências antigas continuam voltando de um jeito que você não consegue acalmar, ou se tudo simplesmente parece demais, isso é um bom motivo para conversar com um médico ou terapeuta. Um profissional pode ajudar você a abrir espaço para o que vem carregando, no ritmo que for seguro para você. Você não precisa esperar ficar insuportável para pedir ajuda. Buscar apoio cedo é uma das coisas mais gentis e mais práticas que você pode fazer por si mesmo.
O sentimento que você vem evitando provavelmente não é tão perigoso quanto a fuga em si. A maioria das emoções, com um pouco de ar e um pouco de tempo, se suaviza e segue seu caminho. No fundo, elas só querem ser sentidas, por um instante, e depois soltas.
Fontes
- American Psychological Association, Suppressing the 'white bears'
- American Psychological Association, Expressive writing can help your mental health
- National Library of Medicine (PMC), Reappraisal and suppression emotion-regulation tendencies differentially predict reward-responsivity and psychological well-being