Dicas rápidas
- Coluna um: o que você fez. Coluna dois: quem ficou sabendo.
- O que morre sem plateia não era o seu.
- Faça com a semana passada, não com o você imaginado.
Ela se pegou escrevendo o post de anúncio antes de ter feito qualquer parte do trabalho. Não existia ainda nem um parágrafo da coisa em si, e as duas primeiras linhas do texto já estavam boas. Ela ficou um minuto com isso, porque era uma informação genuinamente útil sobre um plano que a empolgava havia um mês.
Não é um defeito de caráter. Querer que as pessoas vejam o que você construiu é normal e quase sempre produtivo, e quem não tem nenhum apetite por reconhecimento costuma construir menos e dividir menos do que constrói. Mas se você está prestes a passar cinco anos em alguma coisa, vale saber quais partes do plano são o trabalho e quais partes são a plateia. Existe um exercício que separa os dois em uns dez minutos, e ele funciona com duas colunas e a agenda da semana passada, não com horas de autoanálise.
Como eu descubro o que eu valorizo de verdade, e não o que eu digo que valorizo?
Olhe para o que você já fez na semana passada, não para o que pretende fazer no ano que vem. Depois pergunte de cada item quem ficou sabendo, e veja quais sobrevivem quando a resposta honesta é ninguém.
Intenções são uma amostra péssima. Elas são escritas pela versão de você que está descansada, sem pressa e imaginando uma plateia de desconhecidos admirados. A semana passada é uma amostra real, colhida em condições reais, com cansaço real dentro. Então abra a agenda e anote, na coluna um, tudo o que você fez sem que ninguém exigisse: a coisa que você leu, a coisa que você consertou e não era sua, a hora que você deu para o problema de outra pessoa, o projeto paralelo, o rascunho extra, o post.
Fique só com o que você escolheu. Dez a quinze itens é uma boa lista. Não edite para ficar mais bonita, porque a versão lisonjeira é exatamente o que este exercício existe para tirar.
O que entra na segunda coluna?
Nomes, não categorias. Escreva as pessoas de verdade que souberam que você fez aquilo, e depois marque em cada linha se você teria feito igual caso essa lista estivesse vazia.
É aqui que o exercício deixa de ser confortável e começa a ser útil. "O time" não é um nome. "LinkedIn" não é um nome. Escreva Marcus, sua chefe, sua irmã, as quatro pessoas do grupo. Algumas linhas vão ter seis nomes e outras nenhum, e é das que não têm nenhum que o resto deste texto fala.
Dan Ariely, Anat Bracha e Stephan Meier relataram na American Economic Review que as pessoas faziam mais o bem quando a sua doação era visível para os outros, e que pagar às pessoas para fazer o bem aumentava muito mais a versão privada do que a pública. Quando existe plateia, a plateia já está pagando. Isso não é um escândalo sobre a natureza humana. É uma medição que você pode fazer na sua própria vida em dez minutos, e ela te diz quais dos seus compromissos são os que sustentam o peso.
E se quase tudo morrer na coluna dois?
Esse é o resultado normal e não é um veredito sobre o seu caráter. Quase todos nós funcionamos em parte à base de visibilidade, e o objetivo do exercício é achar aquele um ou dois itens que não.
Boa parte do trabalho é legitimamente para os outros verem. Trabalho é isso: você constrói algo, alguém percebe, essa pessoa te paga ou te promove ou te contrata da próxima vez. Uma coluna dois cheia de nomes é sinal de que você tem emprego e gente por perto, não sinal de que você é oco. O que você está caçando é o resíduo pequeno, as duas ou três linhas em que você teria feito aquilo numa casa vazia, porque essas linhas são as únicas que ainda vão estar rodando no mês em que tudo aperta e ninguém aplaude.
Se o resíduo for realmente zero, não conclua nada dramático. Refaça o exercício em outra semana, e coloque de propósito um item sem testemunhas na semana que vem, só para ver o que acontece.
Querer plateia me torna uma fraude?
Não. Reconhecimento é um motivador real e útil, e a pesquisa é mais interessante do que a versão moralista dessa pergunta sugere.
Edward Deci, Richard Koestner e Richard Ryan revisaram 128 experimentos na Psychological Bulletin e descobriram que recompensas materiais entregues por realizar uma tarefa reduziam de forma consistente o interesse próprio das pessoas por aquela tarefa, enquanto o elogio verbal em geral aumentava esse interesse. Ouvir que o seu trabalho ficou bom é combustível. Ser pago por unidade tende a transformar uma coisa que você queria fazer numa coisa que você faz pelo dinheiro. A teoria da autodeterminação, o quadro maior que Ryan e Deci construíram em torno desses resultados, sustenta que a motivação que dura é a que vem com autonomia e competência junto.
E esse é o ponto prático. Você tem permissão para querer a plateia. Só é bom ter pelo menos uma coisa na sua vida de trabalho que não esteja sendo paga com aplauso, porque é essa que continua andando num trimestre em que o aplauso some.
Qual dos itens que sobreviveram eu faço primeiro?
O menor deles, esta semana, num tamanho que você consiga mesmo terminar. Uma versão de duas horas feita no sábado de manhã te diz mais do que uma versão de cinco anos que você continua descrevendo no jantar.
Tem um jeito de dar errado aqui que vale nomear. As pessoas terminam o exercício, encontram a coisa que fariam sem ninguém olhando, e na hora inflam aquilo até virar um plano que exige um ano sabático, um sócio e uma cidade nova. Aí o plano nunca começa, e o exercício fica arquivado como interessante em vez de virar ação. Faça o contrário. Pegue o item que sobreviveu e corte até caber num fim de semana, depois faça uma vez, sem anunciar. Se no segundo sábado ainda for interessante, é real, e daí você pode começar a dar espaço de verdade para isso na agenda.
Depois refaça tudo daqui a três meses. Isso não é uma revelação única, é um instrumento, e instrumentos servem para fazer leituras repetidas.
O item que nunca vira post
Existe uma entrada que passa na segunda coluna automaticamente, e vale testar antes de você decidir se confia em qualquer coisa disso. Defenda alguém que não pediu. Coloque o nome dessa pessoa numa sala em que ela não está, por algo que ela nem sabia que estava acontecendo, e depois não conte para ninguém, nem para ela.
Nada se acumula. Não tem post, nem resposta, nem obrigado, nem uma linha na avaliação. Em uns quatro segundos depois de decidir fazer isso você vai descobrir se aquilo que você diz valorizar sobrevive sem plateia, e vai descobrir ao custo de uma frase. É o teste honesto mais barato desta página e o único item que ainda por cima é um favor para outra pessoa.
Você não precisa virar uma pessoa mais calada ou menor para passar nele. Saber o que você construiria sem ninguém olhando não serve para você parar de querer o reconhecimento. Serve para garantir que pelo menos um dos motores embaixo de você siga ligado nos dias em que ninguém está olhando, porque uma pessoa com dois motores consegue empurrar mais forte e por muito mais tempo do que uma pessoa com um.
Fontes
- American Economic Review, Doing Good or Doing Well? Image Motivation and Monetary Incentives in Behaving Prosocially
- Psychological Bulletin, A meta-analytic review of experiments examining the effects of extrinsic rewards on intrinsic motivation
- Self-Determination Theory, Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being